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(Especial) Como é que a AMD recuperou, depois de quase ‘morrer’?

Apesar de todo o sucesso que a AMD goza neste momento, a verdade é que as coisas nunca foram uma viagem num mar azul, calmo e bem cheiroso. Aliás, há bem pouco tempo, a responsável pelos super populares processadores Ryzen esteve quase na banca rota, com um único destino à vista, ser desmantelada e vendida aos bocados.

Em suma, a história da AMD é longa (50 anos), sendo ao mesmo tempo uma das mais polarizantes da indústria, estando cheia de sucessos brutais, erros incrivelmente parvos, vivendo quase sempre no fio da navalha. No entanto, enquanto muitas outras empresas chegaram e rapidamente desapareceram, a AMD tem conseguido sobreviver a tudo e mais alguma coisa.



(Especial) Como é que a AMD recuperou, depois de quase ‘morrer’?

a AMD.

Portanto, para começar, temos de ir aos anos 50, ao fim da segunda guerra mundial, altura em que o mundo estava pronto a entrar numa era mais tecnológica. Onde tínhamos empresas como a Bell, Texas Instruments, etc… A oferecer emprego a alguns dos melhores engenheiros do planeta, conseguindo chegar a várias tecnologias inovadoras como o circuito integrado e o MOSFET.

No entanto, devido à recente guerra, os gestores de projectos eram demasiado cautelosos! O que começou a criar uma onda de indignação no meio das equipas de engenharia cheias de talento e vontade de inovar. Como tal, foi assim que vimos algumas personalidades a dar origem à Integrated Electronics (Intel) e mais tarde, a Advanced Micro Devices (AMD).

Nesta altura, em apenas 6 meses, a AMD foi capaz de oferecer produtos com maior eficiência, tolerância e velocidade, em relação ao que já se encontrava no mercado. Ao fim ao cabo, a empresa começou imediatamente a apostar em designs com standards militares, o que claro está, resultou em produtos mais robustos e mais capazes.

Entretanto, quando a Intel lançou o seu primeiro micro-processador de 8 bits (Intel 8008), a AMD já era uma empresa com mais de 200 produtos, onde poderíamos encontrar chips de memória RAM, bit shifters, etc… No entanto, rapidamente vimos novos modelos a chegar ao mercado, como o Am9080, que era basicamente um clone do sucessor ao Intel 8008. (Um copianço sem dó nem piedade que hoje iria fazer capas de jornais, mas que na altura era completamente normal.)

Ao fim ao cabo, a Intel e AMD até assinaram um acordo em 1976, permitindo que ambas as empresas inundassem o mercado com chips com margens de lucros absurdas.

Entretanto, a IBM começou a entrar no mundo dos PCs em 1982, altura em que tanto a Intel como a AMD forneciam componentes similares em tudo, até no preço. Aliás, a AMD e Intel assinaram um novo acordo em 1982, para continuar a fornecer componentes não só para a IBM, mas também para outras fabricantes populares da altura, como a Compaq. (Os muito famosos IBM Clones)

No entanto, foi aqui que começaram os problemas entre as duas empresas…

a AMD.

Pois bem, foi nesta altura que a AMD começou a produzir o Intel 80286 de 16-bit, com o nome de Am286, aquele que é considerado por muitos como o primeiro processador para PCs desktop. O problema é que a versão da AMD começava nos 8 MHz e ia até aos 20 MHz, enquanto a versão Intel ia apenas dos 6 aos 10 MHz. Em suma, muito resumidamente, foi aqui que começou a guerra Intel vs AMD.

Aliás, como a AMD oferecia o mesmo processador com velocidades significativamente mais altas, a Intel fez tudo por tudo para parar a empresa, tentando excluir a agora rival da licença para a nova geração de CPUs 386.

Não achando a jogada justa, a AMD levou a Intel a tribunal, mas como a justiça é sempre rápida… O caso arrastou-se durante 4 anos e meio. Dito isto, apesar do júri chegar à conclusão que a Intel não era obrigada a partilhar todos os seus novos designs, a verdade é que foi decidido que a gigante azul dos micro-processadores tinha infringido um acordo de boa fé.

Contudo, como o tribunal demorou quase 5 anos, a AMD foi obrigada a criar o seu próprio produto, tendo como base o Intel 80386, lançando assim o Am386. Um CPU que chegou ao mercado com quase o triplo da velocidade do CPU original. E que posteriormente foi sucedido pelo Am486, também ele capaz de oferecer mais 20% de performance em relação à oferta da Intel, ao mesmo preço.

Entretanto, a Intel decidiu mudar a sua estratégia de nomes para se afastar um pouco da AMD, criando assim uma nova imagem.

A guerra continuou até ao lançamento dos processadores K5/K6, Athlon, etc… da AMD e Intel Pentium II e III da Intel! Mas isto levanta uma questão, se a AMD tinha produtos tecnologicamente mais evoluídos, onde é que as coisas correram mal?

a AMD.

Como deve ter percebido, até aqui, a AMD foi sempre uma rival à altura da Intel! E na verdade, não existe momento temporal para apontar e dizer… Foi aqui que a fabricante caiu! Afinal, foi tudo uma série de más decisões, falhas no design de produtos, com uma crise global sem precedentes à mistura.

Por isso, vamos avançar um pouco no tempo para uma era mais moderna (2006), altura em que tanto a Intel como a AMD tinham gamas gigantescas de produtos no mercado. Mas claro, a AMD tinha algum destaque graças aos processadores Athlon 64 FX, nomeadamente o FX-60 dual-core e o FX-57 single-core, que eram capazes de comer a concorrência vinda da Intel ao pequeno almoço, como as reviews ainda mostram. No entanto, também foi aqui que a Intel começou a perceber que algo estava mal, deixando o afamado nome Pentium cair para as gamas baixas. De forma a apostar nos super populares Core 2 Duo e Core 2 Quad.

Foi aqui que a Intel começou a conquistar o trono da performance nos mercados mainstream e entusiasta.  Com uma boa ajuda de um erro curioso, e bem pesado para as costas da AMD.

É que três dias antes do lançamento dos Intel Core 2 Duo, a AMD fez o anúncio de que iria comprar a ATI Technologies, num negócio a envolver quase 5.4 mil milhões de dólares.



Para ter noção do risco, estamos a falar de um negócio que equivale a 50% da capitalização de mercado da AMD na altura. (Em suma, a compra fazia sentido, o preço nem por isso)

Antes de mais nada, para ter noção do abuso de valor de venda da ATI, a Imageon (divisão de gráficos mobile da ATI) foi vendida à Qualcomm por apenas 65 milhões de dólares. Uma divisão que agora é conhecida como ‘Adreno’ (um anagrama de ‘Radeon’).

Em suma, a ATI foi comprada muita acima do seu valor real, visto que naquela altura nem a NVIDIA era capaz de alcançar estes níveis de receitas. Aliás, a ATI nem tinha produção sua, ou seja, todo aquele dinheiro foi apenas gasto em propriedade intelectual. (Caso não saiba, a própria AMD assumiu o erro alguns anos mais tarde.)

Após este gasto de dinheiro sem grande sentido, a resposta da AMD aos novos Core 2 Duo da Intel foi também uma autêntica desilusão, na forma dos K10 Barcelona, que segundo o presidente da AMD, seria um produto capaz de reinar o mercado de servidores, visto que era um CPU Quad-Core, numa altura em que a Intel apenas contava com processadores Xeon Dual-Core.

No entanto, quando o chip Opteron apareceu em Setembro de 2007, foi descoberto um bug que em circunstâncias raras, poderia causar problemas catastróficos. O que claro está, resultou numa paragem absoluta da produção, e posterior lançamento de um patch que custou 10% de performance. Esta situação fez danos significativos na reputação da AMD no mercado.

Posteriormente, a AMD lançou finalmente o seu processadores K10 quad-core para o mercado de desktops, mas nesta altura já a Intel tinha lançado o famoso Core 2 Quad Q6600, um processador que vendeu que nem pãezinhos quentes. Dito isto, a oferta da AMD até era superior, visto que os 4 núcleos estavam na mesma die, enquanto o Q6600 tinha duas dies separadas dentro do mesmo chip. Mas como o CPU da AMD tinha dificuldades em alcançar frequências altas, o mercado voltou-se mais para a solução da Intel (Especialmente porque o preço da oferta da AMD era mais alto).

Calma! Que tivemos mais um tiro no pé da AMD, o lançamento dos CPUs Phenom!

Portanto, enquanto a Intel se viu obrigada a abandonar o nome Pentium por estar associado a produtos quentes e pouco performantes. O nome Athlon era o completo oposto! Sendo conhecido pela sua velocidade. No entanto, a AMD decidiu mudar o nome, ao mesmo tempo que parece ter reduzido o orçamento do departamento de marketing para zero, visto que o esforço publicitário foi quase nulo.

Além de tudo isto, a AMD também tinha de lutar contra as práticas menos éticas da Intel, que pagava muitos milhões de dólares às parceiras OEM para manterem os CPUs AMD fora dos seus PCs. Ao fim ao cabo, só no primeiro trimestre de 2007, a Intel pagou 723 milhões de dólares à Dell para ser a única fornecedora. Mais tarde, a AMD até ganhou um processo, arrecadando cerca de 1.25 mil milhões de dólares devido a estas jogadas da Intel. O que parece pouco, mas a verdade é que a AMD também não tinha produção suficiente para fornecer o que o mercado precisava.

Muito resumidamente, o investimento parvo na ATI e sucessores desapontantes a processadores bem sucedidos fizeram alguns danos na imagem da empresa. No entanto, não foi por aqui que a AMD escorregou e quase ‘morreu’.

As coisas ainda vão piorar antes de melhorar.

Ao fim ao cabo, em 2010, a economia mundial estava no esgoto depois de uma crise financeira sem precedentes em 2008. O que claro está, resultou na venda do departamento de memória Flash por parte da AMD, bem como as suas linhas de produção que eventualmente deram origem à GlobalFoundries. Além disto, a empresa foi também obrigada a despedir 10% do seu staff. Nesta altura, o objectivo era que a AMD ficasse completamente focada no design de CPUs, esquecendo tudo o resto… Dando origem à ainda mais desapontante arquitetura Bulldozer.

A AMD até voltou a usar o ‘velhinho’ nome Athlon, mas sem grandes resultados, visto que performance voltou a desiludir os entusiastas. Ainda assim, com muitos milhões investidos na arquitetura e na aquisição da ATI, a empresa apostou naquilo que hoje conhecemos como APUs, ou seja, um chip CPU + GPU, na altura denominado de Fusion. Que claro está, chegou tarde ao mercado, voltando a desiludir.

No entanto, nem tudo foi perdido nesta aposta, visto que como disse, isto mais tarde deu origem aos famosos APUs, e claro, fez com que a AMD entrasse no mundo das consolas em 2013.

Entretanto, a AMD decidiu esquecer o nome ATI em 2010, absorvendo completamente a imagem da empresa, isto ao mesmo tempo que também optou redesign completo da arquitetura GCN criada pela ATI em 2011, com o lançamento do GCN. Um design que durou 8 meses no mercado, chegando às consolas, PCs e até workstations.

Entretanto, no fim de 2016, a AMD já tinha tido 4 anos consecutivos de perdas, a dívida estava cada vez maior, algo que nem a venda de chips para as consolas, vendas das linhas de produção e outros departamentos ajudou. Em suma, parecia que o fim estava à vista para a empresa.

Uma subida (Rise… Ryzen!) para o topo 

a AMD.

Assim, sem nada para vender, nem qualquer sinal de investimento para salvar a empresa, só existia um caminho… Re-estruturar completamente a AMD! Foi aqui que vimos a entrada de Jim Keller e Lisa Su, duas personalidades que muito provavelmente são os grandes responsáveis pelo salvação da gigante e agora líder.

No entanto, apesar de tudo aquilo que Lisa Su tem de bom, a agora CEO da AMD sabia que antes de ter sucesso, a empresa ainda tinha muito que sofrer. Ao fim ao cabo, os designs precisam de vários anos até chegar ao mercado.

Mas aqui, a história fica ainda mais curiosa! É que enquanto a AMD continuava a sofrer, a Intel estava sozinha no poleiro, o que claro está, também tem as suas desvantagens.

Os 10nm da Intel!

Caso não saiba, apesar dos lucros recorde da Intel, nem tudo estava bem nos bastidores da empresa. Ao fim ao cabo, em 2012, o planeamento da fabricante apontava para o lançamento dos primeiros processadores baseados no processo de 10nm em 2015.

No entanto, a coisa correu terrivelmente mal, por isso, em 2015 tivemos o primeiro processador baseado no processo de 14nm… E na verdade, em 2020, ainda estamos à espera do primeiro processador de 10nm para o mundo dos desktops. Aliás, a Intel veio a público no fim da semana anunciar que os 7nm também estão a apresentar dificuldades sérias.

Em suma, a AMD foi capaz de aguentar a tempestade, porque teve uma quantidade quase inacreditável de sorte com o processo de 10nm, mas também com a ganância da Intel. Que como deve saber, optou por apostar forte e feio nos muito lucrativos quad-core, em vez de apostar no aumento de performance e de núcleos.

Algo que a AMD aproveitou como nunca!

Assim, a rival da Intel esteve silenciosamente a preparar o seu ataque, revelando a sua mão em Fevereiro de 2016 na E3!

Onde aproveitou o reboot de Doom para anunciar a nova arquitetura Zen que mais tarde iria dar origem aos primeiros processadores Ryzen. As promessas foram muitas e o entusiasmo dos utilizadores subiu! E finalmente, a AMD foi capaz de finalmente cumprir as suas promessas em 2017! Ao lançar CPUs capazes de oferecer 8 núcleos e 16 threads, a um preço muito apelativo em relação à oferta da Intel.

Aqui já deve conhecer a história mais ou menos, é que depois tivemos a arquitetura Zen+ em 2018 com algumas melhorias arquitecturais. E finalmente em 2019, tivemos a inovadora arquitetura Zen 2 capaz de revolucionar o mercado de CPUs.

Mas antes de mais nada, temos de olhar para aquilo que a AMD foi capaz de fazer com a arquitetura. É que num espaço de 8 anos, a empresa foi capaz de pegar num protejo que consistia numa folha em branco, para agora ter uma gama gigantesca de produtos que vai desde processadores quad core de 99€ até monstros de 64 núcleos a custar 4000€.

O que claro está, também resultou numa revolução nas finanças da AMD, visto que a empresa conseguiu recuperar de perdas de dinheiro quase inacreditáveis, para agora ter quase todos os seus empréstimos pagos.

Uma tendência de recuperação que também parece estar a passar para o mundo das placas gráficas! A arquitetura RDNA foi capaz de fazer alguns estragos à quota de mercado da NVIDIA em 2019 e 2020. E pelos vistos, a nova arquitetura RDNA 2 vai ser ainda mais capaz de dar dores de cabeça à gigante das GPUs, ao fim ao cabo, parece que a AMD vai voltar às gamas altas do mercado gráfico.

Será que a AMD poderá voltar aos tempos negros?

a AMD.

Apesar dos últimos anos terem sido um autêntico sonho para a AMD. A verdade é que a empresa é ainda muito mais pequena que as rivais Intel e NVIDIA. Ou seja, apesar de todos os problemas dos processos de 10nm e 7nm, a Intel continua a contar com as suas linhas de produção… Enquanto a AMD tem de fazer encomendas às parceiras TSMC ou GlobalFoundries.

Resumindo e concluindo, como o passado mostra, ter sucesso não é tudo! Ao fim ao cabo, uma série de más decisões pode meter tudo em risco. E claro, ao contrário da Intel e NVIDIA, a AMD não tem uma cama de penas (dinheiro) atrás de si para cair novamente.

Se as coisas correrem mal outra vez, a coisa pode ficar grave.


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Nuno Miguel Oliveirahttps://www.facebook.com/theGeekDomz/
Desde muito novo que me interessei por computadores e tecnologia no geral, tive o meu primeiro PC aos 10 anos e aos 15 anos montei a minha primeira torre, desde aí nunca mais parei. Tudo o que seja tecnologia, estou na fila da frente para saber mais.

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