Beltrão Coelho: Uma história tecnológica com 70 anos

Existem marcas com história em Portugal. A Beltrão Coelho é aquela empresa cujo nome todos conhecem e que associamos normalmente a serviços de impressão. De facto é a empresa tecnológica com maior longevidade no mercado português. A Leak viajou no tempo e foi conhecer um pouco mais a história desta empresa.

Beltrão Coelho

Beltrão Coelho: Como tudo começou

Beltrão CoelhoTemos de viajar até aos anos 40 para assistir ao nascimento da Beltrão Coelho, na altura em que o funcionário dos serviços gerais na Embaixada da Suécia decide começar um negócio em paralelo ao emprego oficial. Assim, em 1948, nasce em Lisboa, a J. Beltrão Coelho sediada na própria casa do novo empresário. Inicialmente apostava na representação em Portugal do papel Telko e dos filtros Omag, igualmente suíços. Três anos depois este empresário abandonou a sua atividade na embaixada e passou a dedicar-se exclusivamente ao negócio da fotografia.

Ainda sem local próprio, a empresa instala-se primeiro no Largo de Carmo, sendo J. A. Beltrão Coelho ainda o seu único funcionário. A partir de 1954, passou a ter instalações próprias na Rua dos Fanqueiros. Dois anos mais tarde, já com os escritórios na Rua Nova do Almada, passou a ser uma sociedade de responsabilidade limitada – Beltrão Coelho, Lda –, cujos sócios principais eram o próprio e a sua mulher. Em 1965, a sede é transferida para a Rua Castilho.

Uma visita proveitosa à Photokina

Em 1951, J. A. Beltrão Coelho desloca-se pela primeira vez, em 1951, à Feira Internacional de Fotografia Photokina, o que passaria a ser uma visita constante todos os anos, o que se vem a revelar uma decisão chave para obter diversas representações.

Em 1954, começa a importar material fotográfico do Japão, tendo sido por isso a primeira empresa portuguesa a operar neste segmento. Consegue, então, três das representações de maior nome no mercado fotográfico: as máquinas Polaroid (1956), Asahi Pentax (1958) e o ViewMaster (1961).

Lembram-se destes óculos inovadores para a altura? Foi a Beltrão Coelho que os trouxe para Portugal.

A entrada no mundo da impressão

No entanto em 1961, a empresa sentiu pela primeira vez um decréscimo (menos nove mil escudos) no seu volume de vendas, comparativamente aos anos anteriores. Vivia-se então um ambiente de retenção, e J. A. Beltrão Coelho, preocupado com as flutuações do mercado, decidiu diversificar o seu ramo de atividade para outra área. A empresa, que até agora se dedicava exclusivamente ao ramo fotográfico, iniciou como medida de defesa, uma diversificação de atividades e passou a incorporar também equipamentos para fotocópias. A Beltrão Coelho, Lda. passou então a representar a marca Nashua com equipamentos de cópia e papel eletroestático (sendo que nesta época a Nashua era parceira da Savin e da Ricoh neste ramo de negócio).

Até 1975, este setor preencheu apenas cerca de dez por cento da atividade da empresa. Em breve, as medidas de austeridade abateram-se sobre as importações dos produtos fotográficos, a ponto de se tornarem um verdadeiro pesadelo para os importadores. E isto não tanto pela austeridade em si – que todos aceitaram como necessária –, mas antes pela forma indiscriminada como ela foi imposta e que veio transformar a fotografia num luxo. Com a diversificação do ramo de atividade, a Beltrão Coelho Lda., foi das primeiras empresas nacionais a vender microfilme, projetores de slides, calculadoras, etc.

Uma empresa voltada para a componente social

A Beltrão Coelho revelou desde muito cedo uma forte componente social e uma preocupação acrescida com os seus colaboradores. Deste modo, Beltrão Coelho foi o primeiro patrão de uma empresa portuguesa a dar a tarde de sábado aos seus empregados e, mais tarde, o dia completo. Além disso, sempre cultivou o bom ambiente de trabalho, dentro e fora da empresa, através da organização de festas de aniversário, jantares de Natal, jogos de futebol, etc.

Do pai para o filho

A diversificação da atividade iniciada em 1961, alargada a partir de 1975, permitiu à Beltrão Coelho Lda. manter o seu pioneirismo de mercado e expandir-se noutros segmentos.

Em 1977, António Beltrão Coelho entra na empresa «seguindo as pegadas do pai». J. A. Beltrão Coelho acompanhou a atividade do filho durante oito anos, mas depois acabou por sentir que, sendo a Beltrão Coelho, Lda. uma empresa de cariz familiar, o seu filho estaria perfeitamente à altura para prosseguir com o negócio. Em 1985, sai da empresa, mantendo apenas o seu cargo honorífico.

António Beltrão Coelho

A representação da Casio

Após ter tomado o cargo de diretor-geral da Beltrão Coelho, o engenheiro António Beltrão Coelho continuou o mote dado pelo seu pai, diversificando cada vez mais o portefólio de produtos da empresa e consolidando a sua posição nos mercados em que operava. Assim, em 1978, a Beltrão Coelho passa a representar a prestigiada marca Casio com a introdução das calculadoras eletrónicas, linha de produtos que marcou toda uma geração de estudantes.

De forma a continuar a dar resposta às necessidades do mercado, em 1985, a Beltrão Coelho cria o DEP, Departamento de Estudos de Modelos e Protótipos. É então lançada a marca própria Magma que inicia o fabrico de retroprojetores e episcópios (na Rua do Salitre, em Lisboa).

Em 1987, com o lançamento da A.B Dick CD-ROM System, a Beltrão Coelho tornou-se na primeira empresa a fornecer equipamentos que permitiam a digitalização da informação analógica para arquivo digital. No ano seguinte, dá mais um passo em direção ao futuro e passa a representar as máquinas de escrever International.

Os anos que se seguem marcam uma revolução ao nível da imagem fotográfica digital. A Beltrão Coelho esteve, mais uma vez, na linha da frente, sendo a pioneira com o lançamento da máquina fotográfica Casio QV-10, considerada a primeira máquina fotográfica com LCD para o grande consumo.

Casio QV-10 – a primeira máquina fotográfica com LCD para o grande consumo

O ano de 1998 foi um importante marco para o país: vivia-se uma atmosfera de estabilidade economico-financeira fundamental ao crescimento próspero das empresas nacionais. Foi também incontornável a Expo 98, evento que projetou a imagem do país além-fronteiras.

Para esta empresa, 1998 foi também um ano frutífero. Foram introduzidos os primeiros sistemas de escritório multifuncionais da Nashuatec, os sistemas de contagem de dinheiro da Laurel e a marca própria de computadores de secretária BlueBird.

A empresa foi igualmente reconhecida pela APCER com o selo de certificação ISO 9002, referente ao Sistema de Qualidade.

Uma estratégia abrangente no domínio das TIC

No início dos anos 2000, a Beltrão Coelho mantinha a sua estratégia de diversificação do portefólio, e passava a comercializar sistemas de jogo para Casinos, pilhas recarregáveis Uniross e dispensadores e purificadores de água TanaWater. Em 2004, foi responsável pela instalação das primeiras salas TIC do ensino português; mais tarde, em 2008, forneceu também os primeiros quadros interativos das escolas públicas (cerca de 2000 unidades).

Foi por volta desta altura que se começaram a sentir, por toda a Europa, os sinais da grave crise financeira que se avizinhava. Portugal não foi exceção, pelo que todas as empresas portuguesas, incluindo a Beltrão Coelho, sofreram um duro embate.

Parceria com a Xerox

Em 2011, a Beltrão Coelho inicia a parceria e comercialização dos sistemas de escritório Xerox – líder em serviços e tecnologia de gestão documental. No ano seguinte (2012), é certificada com o selo de qualidade referente ao ambiente – ISO 14001.

Pouco depois, em 2015, a Beltrão Coelho é nomeada parceira Platinum da Xerox (sendo a única até à data) e PME Líder 2015, reconhecimento que ganhou também nos anos que se seguiram. Este ano marca também a inauguração da Galeria de Arte da empresa, um projeto de responsabilidade social que manteve até aos dias de hoje.

Em 2016, atestando o sucesso da parceria com a Xerox, a Beltrão Coelho foi nomeada Parceiro do Ano Xerox.

Já em 2017, a Beltrão Coelho é reconhecida pela APEE com um selo de responsabilidade social pelo seu trabalho na Galeria de Arte; é também reconhecida pela Xerox com o certificado de “Melhor Performance 2017”. Termina o ano recebendo mais uma certificação de Qualidade, desta vez referente à Segurança da Informação – a ISO 27001.

No início deste ano António Beltrão Coelho retirou-se da empresa e delegou o cargo à sua filha Ana Cantinho, que a partir dessa altura passou a desempenhar as funções de Diretora-Geral. Contrariando as estatísticas, a Beltrão Coelho conseguiu atravessar várias gerações, encontrando-se agora na 3ª.

Veja a cronologia interativa dos momentos mais marcantes da história da Beltrão Coelho

Os momentos mais marcantes

1948- Fundação com a comercialização de papel fotográfico Telko.
1958- Representação das máquinas fotográficas Pentax.
1960- Introdução dos sistemas de escritório com a representação de equipamentos Nashua.
1978- Representação de calculadoras eletrónicas Casio.
1986 – Início da Central de Compras do Estado, onde a Beltrão Coelho entra como a primeira empresa selecionada.
1987 – Surge o MPS (Managed Print Services), contratos tipificados com aluguer “tudo incluído”.
1996- Surgem os primeiros sistemas de escritório multifunções digitais da Nashuatec.
1998- Beltrão Coelho recebe a certificação de qualidade ISO 9001.
2010- Início da parceria e comercialização dos sistemas de escritório Xerox.
2012- Beltrão Coelho recebe a certificação ambiental ISO 14001.
2015- Beltrão Coelho abre a sua Galeria; Beltrão Coelho é nomeada PME Excelência ’15.
2016- Beltrão Coelho é nomeada Parceiro do Ano Xerox.
2017 – Beltrão Coelho conta com 868 clientes com contrato ativo, mais de 7,5 milhões de euros de faturação e mais de 5400 equipamentos geridos em contratos de MPS.
– Beltrão Coelho foi distinguida com o selo de Reconhecimento da Prática em Responsabilidade Social pela Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE).
– Beltrão Coelho é nomeada pelo quarto ano consecutivo PME Líder.
– Beltrão Coelho recebe a certificação de segurança da informação ISO 27001.

Um exemplo para jovens empreendedores

Num período em que assistimos ao nascimento de startups a uma velocidade acelerada, é importante notar que, à mesma velocidade a que estas nascem, também morrem. Um dos motivos é a falta de visão para o futuro e uma fraca cultura de marca e de valores corporativos. Sem estes ingredientes, é muito difícil prosperar a longo prazo.

Com 70 anos de experiência, assume-se, sem dúvida, como uma exceção à regra e na prática um exemplo para os jovens empreendedores que pretendem lançar empresas tecnológicas.

Ao longo do seu percurso, a Beltrão Coelho construiu uma marca com bases sólidas. Isto é visível, inclusive, nos valores da empresa, escritos pelos próprios colaboradores: “a nossa palavra tem valor contratual; prezamos a verdade e o respeito como uma lei inabalável; não queremos os clientes para o momento, mas sim uma parceria para a vida”.

Mais que uma data, a celebração dos 70 anos desta marca portuguesa de origem familiar e que vai já na 3ª geração, é uma prova de empreendedorismo.

Pode visitar a página oficial desta empresa aqui.

Fotos: Beltrão Coelho