Atualmente, o mundo produz uma quantidade de informação digital sem precedentes, desde as tuas fotos pessoais até aos complexos modelos de inteligência artificial. No entanto, os sistemas de armazenamento que utilizas hoje, como discos rígidos (HDD) ou SSDs, têm um prazo de validade curto e degradam-se com o tempo. Este fenómeno, conhecido como apodrecimento de dados, obriga a que a informação seja copiada para novos dispositivos de poucos em poucos anos para evitar a sua perda permanente. Por essa razão, a Microsoft Research está a desenvolver o Project Silica, uma tecnologia que utiliza lasers de alta velocidade para gravar dados dentro de blocos de vidro sólido que podem durar até 10.000 anos. Mas como funciona o armazenamento em vidro?
Armazenamento em vidro: gravação com lasers e a lógica dos Voxels
Ao contrário do que acontece com os bits planos dos discos tradicionais, este sistema utiliza lasers de femtossegundos para criar estruturas 3D no interior do vidro. Podes imaginar estes elementos como pixéis tridimensionais, chamados voxels. Estes lasers emitem impulsos extremamente rápidos na ordem de um quadrilionésimo de segundo permitindo modificar o interior do material sem danificar a superfície.

Além disso, esta tecnologia tornou-se muito mais viável recentemente devido a várias inovações:
Materiais acessíveis: A equipa passou a utilizar vidro de borossilicato, o mesmo material resistente que encontras nos recipientes de cozinha, o que reduz significativamente os custos em comparação com o quartzo caro usado anteriormente.
Resistência extrema: O vidro é imune ao calor, à humidade, a interferências eletromagnéticas e até a danos físicos que destruiriam um disco convencional.
Sustentabilidade: Como os dados não precisam de ser migrados constantemente para novos suportes, o sistema é muito mais ecológico a longo prazo.
Como é que a informação é recuperada?
Certamente estás a perguntar-te como é que se lê algo gravado dentro de um pedaço de vidro. Para resolver este desafio, o Project Silica utiliza arquivos automatizados onde sistemas robóticos localizam e retiram as placas de vidro necessárias. Em seguida, uma rede neuronal faz a leitura e descodifica os padrões gravados no interior do material. É importante destacar que o sistema não consome energia enquanto os dados estão apenas guardados, sendo apenas necessária eletricidade no momento do acesso.
Por outro lado, esta tecnologia já saiu da fase meramente experimental. Em 2019, a Microsoft conseguiu guardar com sucesso o filme Super-Homem de 1978 num pequeno pedaço de vidro. Adicionalmente, o projeto está em utilização no Global Music Vault, na Noruega, para garantir que as gravações musicais da humanidade sobrevivam a catástrofes futuras.
O futuro da nossa história digital
Consequentemente, esta inovação poderá revolucionar a forma como governos e grandes empresas preservam documentos históricos e científicos. Numa era em que a informação digital define a nossa cultura, garantir que ela sobrevive por milhares de anos deixa de ser ficção científica para se tornar uma realidade prática. Em suma, o vidro poderá ser a biblioteca final de toda a nossa civilização.








