Portugal tem passado semanas a fio a levar com chuva, vento, cheias e avisos meteorológicos sucessivos. Aliás, apesar de ser bastante mais suave, já temos uma outra tempestade a caminho, visto que vai chover durante toda a próxima semana (9 a 15), com uma zona temporal em que deverá chover a média de 1 mês em apenas 3 dias.
Ou seja, quando uma depressão se afasta, já outra está a formar-se no Atlântico e a apontar diretamente ao continente. Isto não é coincidência, nem azar. É até bastante normal para o nosso clime.
Ou seja, há uma explicação clara, e passa por algo de que se fala muito, mas que nem sempre é bem explicado. O Anticiclone dos Açores.
Vamos por partes.
Onde nascem as tempestades que chegam a Portugal?

A maioria das grandes tempestades que afetam a Europa nasce no meio do oceano Atlântico. É ali que se formam as depressões, alimentadas por diferenças de temperatura e pressão entre massas de ar quente e frio.
Depois entra em cena a corrente de jato, uma espécie de autoestrada de ventos muito fortes que circula a grande altitude e empurra essas tempestades de oeste para leste, ou seja, dos Estados Unidos em direção à Europa.
Até aqui, nada de novo.
O papel do Anticiclone dos Açores num ano normal. Qual é?
O Anticiclone dos Açores é uma grande zona de altas pressões atmosféricas que, como o nome indica, costuma estar centrada perto dos Açores. Em linguagem simples, é uma área onde o ar desce em vez de subir, o que inibe a formação de nuvens e chuva.
Num ano típico, este anticiclone funciona como um verdadeiro escudo para Portugal e Espanha. Quando as depressões atlânticas se aproximam, batem nessa zona de altas pressões e acabam desviadas mais para norte, seguindo caminho para o Reino Unido, Irlanda ou países nórdicos.
É por isso que tudo aquilo que está a acontecer se sente tão anormal. O nosso “escudo” mudou temporariamente de sítio.
O que é afinal um anticiclone?
De forma simples, um anticiclone é uma zona de alta pressão atmosférica. Nessas zonas, o ar desce e aquece, dificultando a formação de nuvens e precipitação. É normalmente associado a tempo estável, seco e, no verão, a calor intenso.
O problema não é o anticiclone existir. O problema é onde ele está.
O que está a acontecer este ano?
Este ano, o Anticiclone dos Açores está deslocado mais para sul do que o habitual. Em vez de estar bem posicionado para bloquear ou desviar as tempestades, deixou um verdadeiro corredor aberto entre o Atlântico e a Península Ibérica.
Resultado? As depressões deixam de ser empurradas para norte e seguem praticamente em linha reta até Portugal e Espanha.
Sem esse “muro” natural de altas pressões, as tempestades entram umas atrás das outras, muitas vezes ainda reforçadas pelo próprio oceano Atlântico, que continua relativamente quente e fornece energia adicional a estes sistemas.
Isto vai continuar?
Enquanto o Anticiclone dos Açores se mantiver deslocado para sul e a corrente de jato continuar alinhada desta forma, o risco de novas depressões a atingir Portugal mantém-se elevado.
Não significa que vá chover sem parar durante meses, mas significa que o padrão atual favorece entradas frequentes de sistemas atlânticos.
Mas, adivinham-se melhorias nos próximos tempos, com a deslocação do anti-ciclone para o seu “habitat”.
Em resumo
Portugal não está a ter um inverno estranho por acaso. O “escudo” que normalmente nos protege está fora do sítio, e isso abre caminho a tempestades que, noutros anos, passariam ao lado.
É apenas isso, e é algo “normal”. Aliás, os invernos em Portugal sempre foram rigorosos, onde é absolutamente natural chover muito. Se calhar estamos é mal habituados após alguns anos mais secos.

