Por cá, ainda anda tudo muito ameno. Mas, em Espanha, a luta contra a IPTV pirata está a entrar numa nova fase. Aliás, isto pode vir a ter impacto muito para lá dos jogos da bola.
Sim, durante muito tempo, a conversa andou quase sempre à volta da LaLiga, dos bloqueios em dias de jogo e das perdas milionárias associadas às transmissões ilegais. Mas o cenário mudou. Agora, a ofensiva é mais ampla, mais agressiva e também muito mais polémica.
Já não se trata apenas de proteger o futebol
Portanto, o que começou por estar muito ligado ao futebol espanhol está agora a alargar-se a outros eventos desportivos transmitidos em direto. Ténis, golfe, Liga dos Campeões e outros conteúdos com direitos controlados pela Telefónica passam a entrar no mesmo saco.
Isto é importante porque mostra uma coisa muito simples. A guerra contra a pirataria deixou de ser um tema quase exclusivo do futebol. Hoje em dia, os consumidores já não querem pagar para ter acesso ao conteúdo.
O que não é só culpa do consumidor, é também muito culpa das empresas que andam a pedir demasiado dinheiro, com aumentos quase absurdos ao longo dos anos.
As operadoras passam a ter um papel ativo no bloqueio
Segundo a mais recente decisão judicial em Barcelona, a Movistar Plus+ pode pedir a colaboração dos restantes operadores para bloquear, em tempo real, sites, domínios, URLs e endereços IP associados à difusão ilegal de conteúdos protegidos.
Ou seja, operadoras como Movistar, O2, Vodafone, Orange, Digi e outras deixam de ser apenas observadoras. Passam a ter um papel ativo na resposta ao streaming ilegal.
É uma estratégia muito mais dura. E também muito mais perigosa!
Na teoria, faz sentido. Afinal, se o objetivo é cortar o impacto económico da pirataria, então bloquear a emissão em direto parece ser o caminho mais eficaz. Afinal, um jogo pirateado depois de acabar vale muito menos do que um jogo pirateado em tempo real.
Mas também há aqui um problema óbvio. Quanto mais agressivo for o bloqueio, maior é o risco de acertar em coisas que não deviam ser bloqueadas.
Aliás, esta já é uma crítica que tem aparecido várias vezes em Espanha, especialmente quando medidas mais duras acabam por afetar serviços legítimos, acessos normais e utilizadores que nada têm a ver com IPTV ilegal.
E é precisamente aqui que a conversa começa a deixar de ser apenas uma luta contra a pirataria, para passar também a ser uma discussão séria sobre proporcionalidade.
A pirataria em direto continua a valer muito dinheiro!
É precisamente por isso que a LaLiga e os seus parceiros têm puxado tanto por este tema. A ideia é simples. Os conteúdos desportivos em direto são dos mais apetecíveis para redes piratas, porque há urgência, procura e muita gente disposta a fugir aos preços das plataformas legais.
Enquanto houver jogos importantes atrás de subscrições caras, a procura por alternativas ilegais vai continuar a existir.
Sim, o combate técnico e judicial pode apertar, mas o problema de fundo continua muito ligado ao preço, à fragmentação da oferta e à forma como os direitos são vendidos ao consumidor final.
No fim do dia, a guerra à IPTV pirata está a ficar mais séria. Mas não necessariamente mais justa.
Em Portugal ainda não se passa nada. É como se estivesse a chover lá fora e cá ainda estivesse sol. Mas isto é apenas uma questão de tempo. Isto também vai chegar cá. Especialmente agora que se fala cada vez mais da renegociação dos direitos de futebol no campeonato português.
Quando esse momento chegar, a conversa vai deixar de ser só sobre piratas. Vai também passar a ser sobre bloqueios, abusos, preço e acesso.
Fica atento.








