As apps de condomínio já fazem parte da rotina de muitos prédios em Portugal. Avisam quando a limpeza foi feita, mostram as quotas em atraso, registam avarias, permitem reservar a sala de condomínio ou a garagem para mudanças. Em teoria, é só comodidade. Na prática, é também um retrato muito detalhado da tua vida em casa.
As apps de condomínio têm benefícios mas é preciso cuidados
Soluções como plataformas online e apps móveis permitem aos condóminos acompanhar tudo “24 horas por dia, a partir do telemóvel”: avisos, assembleias, documentos, ocorrências, contactos de técnicos, até o histórico de intervenções no prédio.
Agora imagina o que isto significa a nível de dados. Se registas todas as vezes que tens uma infiltração, quando chega uma encomenda, quando pedes abertura do portão ou usas o salão de festas, estás também a desenhar um mapa previsível das tuas rotinas. Ou seja, horas a que costumas estar em casa, épocas em que viajas, quantas pessoas moram na fração, se tens animais, se recebes muitas entregas.
Por lei, alguém é responsável por este “big data de condomínio”: normalmente a administração ou a empresa de gestão. É essa entidade que decide que dados recolhe, por quanto tempo os guarda, com quem os partilha (seguradoras, empresas de manutenção, plataformas de software) e como os protege. Mas a maioria das pessoas instala a app, carrega em “aceito” e nunca mais pensa no assunto.
Vale a pena parar dois minutos e fazer três perguntas simples:
- Quem é o responsável pelo tratamento de dados na app?
- Que dados são mesmo necessários (nome, fração, e-mail) e quais são só curiosidade (profissão, foto, outros)?
- Consigo apagar a conta e pedir que eliminem tudo se mudar de casa?
Como utilizador, tens direitos: acesso aos dados, correção de informação, limitação de utilização e, em muitos casos, oposição a certas formas de tratamento. Se uma app de condomínio permite, por exemplo, ver em detalhe que frações têm quotas em atraso ou que vizinho fez que queixa, convém pensar se isso não passa a linha entre transparência e exposição pública.
A tecnologia pode tornar o prédio mais organizado. Mas se ninguém olhar duas vezes às definições de privacidade, também pode transformar o condomínio num reality show silencioso sobre a vida de toda a gente.






