A Netflix está numa posição curiosa. Continua a ser a maior plataforma de streaming do planeta, continua a ter uma escala absurda, e continua a lançar séries e filmes atrás de séries e filmes. Mas, ao mesmo tempo, também começa a mostrar um problema que muita gente tinha avisado. Não tem assim tantas franchises realmente gigantes para explorar durante anos e anos.
Sendo exatamente por isso que a Netflix tentou meter as mãos na Warner Bros.
O problema da Netflix não é falta de conteúdo. É falta de legado?
A Netflix tem muito conteúdo. Isso é inegável. O problema é que uma grande parte desse conteúdo entra e sai da conversa pública num instante.
Sim, há séries que explodem durante duas semanas, dominam redes sociais, geram memes, e depois desaparecem. Outras são canceladas cedo demais. Outras são mal geridas. E claro, outras simplesmente nunca chegam a transformar-se numa marca a sério.
Stranger Things acabou, Squid Game pode ter um spin-off mas também terminou. Wednesday está forte mas não chega sozinha. E o resto é mais limitado
Se olharmos para o catálogo da Netflix, há claro outras propriedades fortes.
Wednesday continua viva e a mexer muito público. Bridgerton é popular. Black Mirror ainda existe, apesar de andar numa espécie de limbo criativo. E há fenómenos ocasionais que aparecem e desaparecem, como Adolescence ou Queen’s Gambit.
Mas a verdade é que quase nenhuma destas IPs tem o alcance transversal de Stranger Things.
Squid Game, por exemplo, foi um monstro. Mas também é muito mais difícil de transformar numa franchise duradoura e massificada, especialmente junto de públicos mais novos. Bridgerton vive num nicho mais específico. Black Mirror já não parece a máquina imparável de outros tempos.
Ou seja, quando tiras da equação a série que durante anos serviu como símbolo máximo da Netflix, começas a perceber porque é que a plataforma vai continuar a puxar por Stranger Things durante muito tempo.
Mas a culpa também é da própria Netflix
A ironia no meio disto tudo é que muita gente nem acha que a Netflix tenha falta de potencial. O problema é outro. Desiste cedo demais. Ou mexe de forma errada.
Os comentários à volta deste tema batem sempre no mesmo ponto. A plataforma cancelou demasiadas séries promissoras cedo demais, queimou adaptações importantes e matou confiança junto de parte do público.
The Witcher é um excelente exemplo disso. Tinha tudo para ser uma das maiores marcas da casa. Tinha universo, tinha personagem principal forte, tinha fandom, tinha Henry Cavill, e por isso mesmo tinha margem para crescer. Mas, mesmo assim, a Netflix conseguiu complicar o que parecia quase impossível de estragar.
Depois há uma lista interminável de séries que continuam a ser atiradas à cara da plataforma sempre que este tema aparece: Mindhunter, 1899, The OA, GLOW, Shadow & Bone, Archive 81, Sense8, Travelers e por aí fora.
Ou seja, a Netflix não ficou sem IPs porque o mercado é cruel. Também ficou sem IPs porque matou várias antes do tempo.
A absorção da WB seria a salvação?
Em dezembro, tudo indicava que a Netflix ia mesmo conseguir absorver a Warner Bros. E isso podia de facto mudar o jogo. Estamos afinal a falar de um catálogo com Harry Potter, DC Comics (Super-Homem, Batman, etc.), Game of Thrones, Lord of the Rings, Looney Tunes, entre muitos outros IPs.
Tudo coisas com legado, e com muito por onde pegar de forma a criar novo conteúdo.
Mas… correu mal!
No final do dia, a Netflix está refém daquilo que conseguiu criar… e daquilo que estragou
A Netflix não vai acabar amanhã. Nem está perto disso. Continua enorme. Mas uma coisa parece cada vez mais clara. Vai continuar a viver cada vez mais das poucas franchises realmente gigantes que conseguiu construir sem as destruir pelo caminho, e isso é um problema grave.








