Com as recentes inundações que afetaram várias zonas de Portugal, começaram a surgir no mercado de usados carros que estiveram submersos. Frequentemente, estes veículos são limpos de forma profunda e colocados à venda com preços tentadores, mas escondem problemas que podem transformar-se num autêntico pesadelo. Se estás a pensar comprar um carro usado, precisas de ter atenção redobrada, pois os danos causados pela água estão noutro patamar de gravidade. Assim atenção à compra de carros usados nesta altura de cheias.
Carros usados e cheias: a perícia no interior do veículo
Primeiramente, a tua melhor ferramenta de defesa é o teu olfato. O interior de um carro moderno está cheio de materiais que absorvem água, como espumas e tecidos. Consequentemente, se sentires um cheiro a mofo ou a humidade persistente, deves desconfiar imediatamente. Por outro lado, tem igualmente cuidado se o carro cheirar “bem demais” a ambientador, pois o vendedor pode estar a tentar mascarar o odor de desastre.
Além disso, observa atentamente as carpetes. Se o carro tiver cinco ou seis anos e as carpetes parecerem novas, pergunta o motivo da troca. Muitas vezes, quem recupera carros inundados substitui o revestimento do chão para esconder a lama. Adicionalmente, puxa o cinto de segurança até ao fim e verifica se existem marcas de descoloração ou resíduos de lama no tecido. Se o mecanismo de retração estiver preso ou ranger, é um sinal claro de que a água e o lodo passaram por ali.
O que deves procurar debaixo do capô
Posteriormente, passa para a parte mecânica. O motor é um sistema selado, mas a água das cheias consegue entrar por sítios onde não devia. Antes de ligares o motor, retira a vareta do óleo e observa a cor e a consistência. Se o óleo tiver um aspeto de batido de chocolate, significa que a água se misturou com o lubrificante, o que é um sinal crítico de danos internos.
No entanto, a parte mais sensível nos carros atuais é a eletrónica. Abre a caixa de fusíveis e procura por vestígios de sedimentos ou lama seca. Se desconectares uma ficha elétrica ao acaso e vires um pó esverdeado ou branco, estás perante a corrosão do cobre. Esta corrosão é como um cancro para o carro: pode não causar falhas hoje, mas vai corroer os circuitos lentamente até que o sistema falhe daqui a uns meses.
A inspeção do chassis e luzes
Adicionalmente, verifica os faróis e os farolins traseiros. Embora sejam resistentes à chuva, não foram desenhados para serem mergulhados. Se vires condensação persistente ou furos minúsculos feitos na base do plástico, é sinal de que alguém tentou drenar a água acumulada.
Igualmente importante é espreitares o fundo do porta-bagagens, na zona do pneu de socorro. Por ser o ponto mais baixo do carro, a água e o lodo costumam depositar-se aí. Se encontrares ferrugem excessiva ou uma linha de sujidade nas paredes laterais, a probabilidade de o carro ter sido inundado é altíssima. Em suma, o chassis também deve ser inspecionado à procura de oxidação anormal em peças de alumínio, que ganham um aspeto esbranquiçado e gizoso após o contacto com águas contaminadas.
O perigo de uma “bomba relógio” eletrónica
Todavia, podes sentir-te tentado pelo preço baixo, acreditando que consegues reparar os danos. Deves evitar esse pensamento, pois os carros modernos têm dezenas de módulos eletrónicos que comunicam entre si. A água inicia um processo de micro-curtos-circuitos que destrói as placas de circuito impresso ao longo do tempo.
Consequentemente, sistemas de segurança vitais, como o ABS ou os Airbags, podem falhar no momento em que mais precisas deles. Substituir cablagens e módulos de controlo é extremamente caro e, muitas vezes, o custo da reparação supera o valor de mercado do próprio veículo. Portanto, se o negócio parecer bom demais para ser verdade, o melhor que tens a fazer é seguir o teu instinto e desistir da compra. No mundo dos usados, a prudência é o teu melhor investimento.









