Há duas coisas tipicamente portuguesas que funcionam quase sempre: reclamar do trânsito e pagar no multibanco como se fosse um superpoder nacional. E, na prática, é. O Multibanco é tão omnipresente que só te apercebes disto quando vais lá para fora e, de repente, tudo é mais lento, mais caro ou simplesmente… mais confuso. Mas aqui vai a parte que devias mesmo ler com atenção: o multibanco já não é só a máquina para levantar dinheiro. É uma rede com décadas de evolução, com serviços que resolvem metade da tua vida e com riscos que também evoluíram, porque onde há dinheiro há sempre alguém a tentar ser mais esperto do que tu.
O que é o multibanco (e porque é que isto não é só um ATM)
Em Portugal, quando dizes vou ao multibanco, normalmente estás a falar do terminal ATM. Só que o Multibanco é, na realidade, uma infraestrutura de pagamentos e serviços. A máquina é a cara visível, mas por trás existe uma rede que liga bancos, cartões, comerciantes, entidades e serviços.

Na prática, isto explica porque é que consegues fazer numa esquina coisas que noutros países exigem ir ao balcão, abrir uma aplicação, esperar por um SMS, ou pagar uma taxa só porque sim. Estamos habituados a ter pagamentos de serviços, carregamentos, transferências, levantamentos, e até operações de conta, todos encostados ao ecrã e a meia dúzia de cliques.
E sim, com a migração do uso para o telemóvel (MB WAY) e para pagamentos digitais, o “multibanco” passou a ser também uma experiência mobile com as mesmas vantagens e com riscos diferentes.
As operações “clássicas” que ainda mandam na tua carteira
Apesar de toda a conversa de pagamentos digitais, há três coisas que continuam a ser o pão nosso de cada dia: levantar dinheiro, consultar saldo/movimentos e pagar compras com cartão.
Levantar dinheiro continua a ser importante por um motivo simples: há sempre um sítio que “só aceita numerário”. Festas, cafés antigos, algumas feiras, serviços locais. O problema não é o acto de levantar – é a forma como o fazes.

Se o ATM estiver num sítio isolado, com pouca luz, ou com gente demasiado encostada a ti, a regra é: muda de máquina. “Ah mas é já ali.” Sim, e é também já ali que te podem ver o PIN, encostar um leitor falso, ou simplesmente aproveitar a distração. Um levantamento é uma operação rápida – não precisa de drama, mas também não precisa de ingenuidade.
Já a consulta de saldo e movimentos parece inofensiva, mas tem um detalhe: muita gente usa isso como “termómetro” para perceber se houve fraude. Se só consultas de vez em quando, ficas a saber tarde. E quando dás por ela, o dinheiro já foi. Se és do tipo que usa MB WAY e compras online, devias ter hábitos mais frequentes de ver movimentos, nem que seja pela aplicação do banco.
Quanto ao pagamento com cartão, o grande shift foi o contactless. É cómodo, é rápido, e é viciante. Mas é aqui que entra uma nuance importante: comodidade aumenta o risco de desatenção. Não é que contactless seja “inseguro” por si – a tecnologia tem limites, e os sistemas antifraude existem – mas a tua cabeça desliga quando o gesto é automático.
Se estás a pagar num sítio duvidoso e o terminal vai e vem, pede para veres o valor no ecrã, confirma, e só depois aproxima o cartão ou o telemóvel. Não é paranoia, é higiene digital aplicada ao mundo real.
MB WAY: o “multibanco” no telemóvel (e a razão por que quase toda a gente o usa mal)
MB WAY é, para muita gente, o verdadeiro multibanco moderno. Pagas com QR Code, envias dinheiro a amigos, crias cartões virtuais, levantas dinheiro sem cartão, associas números a contas. Parece magia. E, honestamente, em Portugal é das melhores execuções de pagamentos móveis.
O problema é que quase toda a gente trata o MB WAY como se fosse uma conversa de chat: “manda aí 20€” e siga. Só que o MB WAY é finanças. E finanças + pressa = asneira.
A primeira regra é simples: protege o telemóvel como se fosse a tua carteira. Porque é. Se tens o telemóvel sem bloqueio decente, com PIN fraco, ou com notificações a mostrar códigos no ecrã bloqueado, estás a facilitar a vida a quem te quiser lixar.
A segunda: não associes MB WAY num telemóvel “secundário” que ande por casa desbloqueado, ou num equipamento antigo que já nem recebe atualizações. É o equivalente a guardares dinheiro no frigorífico e deixares a porta aberta.

A terceira: aproveita aquilo que a maioria ignora – limites e definições. Alguns bancos e a própria lógica do serviço trabalham com limites diários/mensais. Ajusta o que fizer sentido para a tua vida. Se só usas para pagar cafés e dividir jantaradas, não precisas de limites altos. Se precisas de limites altos, então compensa ainda mais ter segurança a sério (biometria, PIN forte, e atenção a esquemas).
E sim, cartões virtuais MB WAY para compras online são um dos melhores hábitos que podes criar. Em vez de usares o cartão físico em todo o lado, crias um cartão virtual com valor e validade específicos. Se a loja for atacada, o estrago é limitado. Isto não é teoria – é literalmente o tipo de “pequena” decisão que te poupa dores de cabeça.
Pagamentos ao Estado e serviços: a parte do multibanco que salva vidas (e tempo)
Se já pagaste IMI, IUC, propinas, água, luz, ginásio, ou uma fatura qualquer com referência, então já usaste a parte mais subestimada do multibanco: pagamentos de serviços e ao Estado.
A referência Multibanco é, em Portugal, quase uma língua universal para pagar coisas. Em vez de meteres dados de cartão em sites que não conheces bem, ou de fazeres transferências com IBAN e descrições manhosas, tens entidade, referência e montante. Confirmas no ecrã e está feito.
O truque aqui é: confirma sempre o montante e guarda o comprovativo quando faz sentido. Há pagamentos em que uma prova rápida te pode salvar. E “guardar” hoje em dia nem significa imprimir – pode ser tirar foto ao comprovativo, ou guardar o PDF se pagaste via homebanking.
Outra nuance: quando o pagamento é por referência, tens mais controlo do que parece. Se a entidade e a referência estão certas, mas o montante está errado, não pagues “a ver se dá”. Não dá. Ou dá e dá asneira. Contacta a entidade emissora e pede correção.
Multibanco vs homebanking vs app do banco: qual é melhor para quê?
Há uma discussão eterna: “Faço isto no multibanco ou na aplicação?” A resposta útil é: depende do que queres fazer e do contexto.
O ATM é ótimo quando precisas de levantar dinheiro, fazer um depósito (quando disponível), ou tratar de algo rápido sem depender de rede móvel. Também é útil quando estás sem bateria e precisas de uma operação essencial – porque o cartão funciona mesmo que o telemóvel esteja morto.

A aplicação do banco costuma ser melhor para veres movimentos detalhados, congelar/descongelar cartões, gerir limites, criar alertas, e aprovar compras online. E, em muitos casos, é a forma mais rápida de detetar algo estranho.
Já o homebanking no PC é o “modo sério”. Quando tens de fazer operações mais complexas, ver extratos, descarregar ficheiros, confirmar IBANs, ou organizar as tuas finanças com calma, o ecrã grande e o teclado ganham. Não é glamouroso, mas é onde se evita metade dos erros.
A escolha certa não é ideológica. É pragmática: usa o canal que minimiza erro e maximiza controlo.
Contactless, Apple Pay e Google Pay: onde entra o Multibanco aqui?
Muita gente mistura tudo no mesmo saco: “pagar com o telemóvel” e “multibanco”. Na prática, Apple Pay e Google Pay são carteiras digitais que tokenizam o teu cartão. Ou seja, o comerciante não recebe o número real do cartão, recebe um token. Isto, em geral, é bom para segurança.
O Multibanco aparece aqui porque o ecossistema português convive com estas soluções e, dependendo do banco e do cartão, tens integração direta e uma experiência muito “sem fricção”. Pagas por NFC, confirmas com biometria, e está feito.
A nuance: se perdes o telemóvel, o risco não é “alguém vai ao multibanco levantar dinheiro” – porque não levanta sem autenticação e sem as tuas credenciais. O risco é o acesso ao teu dispositivo e às tuas contas se tiveres segurança fraca. Por isso, outra vez, biometria e PIN forte não são luxo, são base.
E atenção a um detalhe que pouca gente pensa: se tens cartões no telemóvel e no relógio, e não sabes onde estão ativados, estás a aumentar a superfície de ataque. Não é para entrares em pânico – é para teres controlo. Vê quais os dispositivos autorizados e remove o que já não usas.
As burlas mais comuns ligadas a “multibanco” (e como não seres o próximo)
Devias ficar irritado com a criatividade de alguns esquemas, porque muitos funcionam só por causa de pressa, distração e falta de literacia mínima. E sim, hoje em dia “burlas multibanco” muitas vezes nem envolvem o ATM – envolvem referências, MB WAY e engenharia social.
A burla clássica do MB WAY em vendas entre particulares continua a apanhar gente. O burlão diz que quer comprar o teu produto, pede o teu número, e depois tenta associar o teu número ao MB WAY dele. Tu recebes um código e achas que é para “receber dinheiro”. Spoiler: é para associar o teu número a outro dispositivo. Resultado: perdes controlo e podem fazer operações.

Regra simples: para receber dinheiro por MB WAY, tu não tens de dar códigos de associação a ninguém. Tu dás o teu número, e a outra pessoa envia. Se alguém te pede códigos, estás a ser puxado para um esquema.
Outra burla típica é a da “referência multibanco” falsa. Recebes uma mensagem a dizer que tens uma entrega, uma multa, uma dívida, ou uma subscrição para pagar. Vem com entidade e referência. Parece legítimo. E tu pagas, porque é rápido.
Aqui o problema é a origem do pedido. Uma referência Multibanco por si só não prova legitimidade. Antes de pagares, confirma no canal oficial da entidade: app, área de cliente, email verificado, ou carta. Se a mensagem te mete urgência (“paga em 30 minutos”), desconfia logo. Urgência é a arma número um.
E sim, ainda existe skimming e manipulação de ATMs, embora seja menos comum do que já foi. Se a ranhura do cartão parece estranha, se o teclado está “solto”, se há uma peça extra colada, ou se a máquina se comporta de forma esquisita, não uses. Vai a outra.
Taxas e limites: o que te pode sair caro sem dares por isso
Portugal habituou-nos mal – no bom sentido. Muitas operações em Multibanco são gratuitas ou têm custos baixos, mas não assumes que “é tudo grátis”. Existem diferenças entre bancos e tipos de conta, e há situações em que pagas sem querer.
Levantamentos noutros bancos dentro da rede nacional normalmente não são um drama para a maioria das contas, mas levantamentos internacionais ou em máquinas fora de redes habituais podem implicar taxas e câmbios pouco simpáticos. Se viajas, planeia: leva um cartão adequado, evita levantamentos pequenos e repetidos, e confirma as condições do teu banco.
No MB WAY, alguns bancos podem ter condições diferentes para certas operações, sobretudo em contextos empresariais ou de limites. Não é comum o utilizador normal levar “taxas surpresa”, mas é comum levar com limites que atrapalham no pior momento. A solução é chata mas eficaz: testa antes. Se sabes que vais fazer um pagamento grande, não descubras o limite na hora.
Outro ponto: pagamentos por referência são ótimos, mas não são reversíveis como um “chargeback” típico de cartão em certos contextos. Se pagaste uma referência errada, vais ter de resolver com a entidade e, às vezes, é um filme. Por isso, confirma duas vezes – entidade, referência e montante.
Multibanco em lojas: quando o terminal é o elo fraco
O terminal de pagamento é o intermediário entre ti e o teu dinheiro. A maioria é segura, mas há maus hábitos que abrem portas.
Se o terminal é levado para trás do balcão, se não vês o valor, se o operador insiste em “passar outra vez” sem explicar, pára. Pede para veres o valor, pede talão, e se algo não bate certo, recusa e paga de outra forma.
Também vale lembrar: pagar com cartão e levantar dinheiro ao mesmo tempo (cashback) não é tão comum em Portugal como noutros países, mas aparece em certos contextos. Se alguém te propõe algo do género sem tu pedires, presta atenção ao que estás a autorizar.
E quando usas contactless, não entregues o cartão “só para ser mais rápido”. A rapidez é tua, não do comerciante. Aproximar o cartão é um gesto que deve ser teu.
O teu multibanco também vive de dados (e isso interessa-te)
Há uma conversa que quase nunca acontece: privacidade. Pagamentos digitais geram dados. Ponto final. E esses dados servem para antifraude, compliance, contabilidade, e também para análise.
Isto não quer dizer que o sistema seja “o vilão”, mas convém ter noção. Quanto mais pagas com cartão e com telemóvel, mais rasto crias. Para a maioria das pessoas, o trade-off é aceitável: conveniência e segurança vs anonimato.

Mas há nuances práticas: se queres reduzir exposição, usa cartões virtuais para compras online, evita meter o cartão em serviços que não precisas, e separa pagamentos “sensíveis” (subscrições, doações, etc.) em métodos mais controlados. Não é para viver em modo conspiração – é para teres escolhas.
Quando algo corre mal: o que fazer imediatamente
Aqui não há espaço para heroísmos. Se suspeitas de fraude, tens uma janela de tempo curta para reduzir danos.
A primeira coisa é bloquear o cartão ou o acesso – pela aplicação do banco, pela linha de apoio, ou pelo que for mais rápido. Se usas MB WAY e achas que alguém está a tentar associar o teu número, trata disso de imediato no serviço e no banco.
Depois, confirma movimentos e reúne evidência: datas, montantes, talões, capturas de ecrã. Não para fazer drama no WhatsApp – para apresentar ao banco e, se necessário, às autoridades.
E aqui vai um conselho que parece básico, mas não é: não esperes “para ver se acontece outra vez”. Se viste um movimento estranho, age já. A diferença entre resolver em 24 horas e em 3 semanas é brutal.
O multibanco no futuro: menos plástico, mais autenticação
O caminho é claro: menos dependência de cartão físico, mais autenticação forte, mais integração com telemóvel, e mais camadas antifraude com análise comportamental.
Isso é bom? Em geral, sim. Mas há um preço: se o teu telemóvel é agora a tua carteira, o teu passe, o teu banco e a tua chave de casa, então proteger o dispositivo deixa de ser “dica” e passa a ser obrigação.
Também vais ver mais pressão para autenticação biométrica e confirmações dentro de apps. É chato quando queres rapidez, mas é precisamente esse atrito que trava muita fraude.
E sim, isto vai continuar a ser assunto para quem acompanha tecnologia e segurança – e é por isso que vale a pena estares atento a guias e alertas quando surgem novas ondas de burlas. Se quiseres ir acompanhando este tipo de temas no dia a dia, a Leak.pt costuma pegar nisto com a rapidez que interessa.
Pequenos hábitos que mudam tudo (sem te estragarem a vida)
Não precisas de transformar a tua rotina num manual de cibersegurança. Mas há hábitos que dão retorno imediato.
Usa biometria e um PIN decente no telemóvel. Não é “1234”, não é a tua data de nascimento, e não é o mesmo PIN do cartão. Mantém o sistema atualizado, porque muitas correções de segurança entram precisamente por aí.
Quando pagares por referência, confirma os três campos e desconfia de urgências. Quando venderes algo online, lembra-te: quem compra não precisa de códigos MB WAY para te pagar.
E quando estiveres num ATM, faz o básico: repara no ambiente, tapa o teclado ao inserir o PIN, e não te deixes pressionar por ninguém que está demasiado perto.
O multibanco é uma das melhores infraestruturas que temos no dia a dia. Trata-o como tal: com confiança, sim, mas com a dose certa de desconfiança que te poupa dinheiro e chatices.

