Basta olhar para um carro familiar dos anos 90 ao lado de muito do que se vende hoje para perceber uma coisa muito simples. O automóvel engordou. Além disso, cresceu em comprimento, cresceu em largura e, de facto, também em altura. Em muitos casos, perdeu também alguma identidade pelo caminho.
O mais curioso é que isto já parece tão normal que muita gente só repara quando vê uma comparação direta.
Eu estou ao volante de um Xpeng G9, que é obviamente um SUV premium, grande e, acima de tudo, impressionante. Mas… é um pesadelo passar com isto em algumas ruas, ou arrumar em alguns sítios.
Não é impressão tua. Os carros estão mesmo maiores!
Durante muito tempo, um utilitário era um utilitário, um familiar era um familiar, e um carro grande era mesmo algo de outro segmento. Hoje, essa linha está cada vez mais borrada. Um Polo moderno tem o tamanho de um Golf antigo. Algo que se repete em todas as marcas. Os carros estão maiores para dar espaço a tudo aquilo que dá alma a um veículo moderno.
Ou seja, um segmento B de agora entra facilmente no território de um segmento C de há duas ou três décadas. E depois ainda tens os SUVs e crossovers a empurrar tudo ainda mais para cima.
Ou seja, o problema não é só existir cada vez mais SUVs, como muita gente gosta de dizer. O problema é que quase tudo cresceu. Até os carros que teoricamente deviam continuar a ser compactos.
Os SUVs aceleraram a moda, mas não explicam tudo!
Claro que os SUVs têm culpa nesta história. Seria sem sentido fingir que não. O mercado apaixonou-se por carros mais altos, com posição de condução elevada, visual mais robusto e aquela falsa sensação de que se está ao volante de algo mais seguro e mais preparado para tudo.
O problema é que, na esmagadora maioria dos casos, estes carros não servem para subir montanhas nem para aventuras radicais. Servem para ir ao supermercado, levar os miúdos à escola, fazer AE e estacionar mal à porta do café. São carros de cidade que, por acaso, também estão prontos para o fim do mundo.
A segurança ocupa espaço. E pesa!
Os carros modernos são muito mais seguros do que os carros antigos. Têm estruturas mais robustas, mais zonas de deformação, mais airbags, mais reforços laterais, mais sensores, mais câmaras e muito mais tecnologia pensada para proteger os ocupantes.
Tudo isso ocupa espaço. Tudo isso pesa. E tudo isso ajuda a explicar porque razão um carro atual parece tão mais volumoso do que um equivalente de há 20 ou 30 anos.
São maiores. Mas nem sempre são muito melhores por dentro
A parte mais engraçada, ou talvez mais irritante, é que este crescimento exterior nem sempre se traduz num salto absurdo no espaço interior. Sim, há melhorias. Sim, há malas maiores em muitos casos. Mas também há muitos carros que cresceram por fora sem justificarem totalmente isso por dentro.
Aliás, esta é uma crítica que aparece vezes sem conta. Há SUVs e crossovers que parecem enormes na estrada, ocupam imenso espaço de estacionamento, mas depois lá dentro continuam a oferecer um habitáculo que não impressiona assim tanto. Eu que o diga, que com o meu 1m90 continuo a bater com a cabeça no teto de muitos SUVs modernos.
Ou seja, ficas com o pior dos dois mundos. Mais volume para estacionar, mais peso para mover, mais consumo e nem sempre um ganho proporcional naquilo que realmente interessa.
Portugal não foi feito para este crescimento! Aliás, não estamos sozinhos nesta luta.
E aqui entramos na parte que mais nos toca. Portugal não cresceu com os carros. As ruas são as mesmas, muitos estacionamentos continuam apertados, as garagens de vários prédios foram pensadas para outra era e até as rampas continuam a castigar carros maiores e mais baixos, ou simplesmente carros demasiado compridos.
Basta olhar para muitos parques subterrâneos, lugares de prédios antigos ou ruas de centro urbano para perceber o absurdo. Os carros cresceram, mas o espaço à volta deles ficou igual. Ou pior, ficou ainda mais caótico.
Depois há o efeito prático do dia a dia. Mais dificuldade a estacionar, menos visibilidade para quem anda em carros mais baixos, faróis cada vez mais altos a encandear tudo e todos, etc… Carros do futuro num ecossistema ainda centrado no passado.
No fim do dia, crescemos demais!
A verdade é esta. Os carros modernos são melhores em quase tudo o que interessa em segurança, tecnologia e conforto. Mas também cresceram para lá do razoável em muitos casos. E esse crescimento já começa a entrar em choque com a realidade europeia, e sobretudo com a realidade portuguesa.
Nem toda a gente precisa de um carro gigante para levar duas pessoas e uma mochila. Além disso, nem toda a gente precisa de conduzir um pequeno prédio com rodas para sentir que está segura.
Em algum momento, a indústria vai ter de perceber que fazer carros melhores não significa obrigatoriamente fazer carros maiores.










