Parece o gesto mais inofensivo do mundo. O telemóvel toca, vês um número que não conheces (ou que até parece familiar), atendes e ouves uma voz do outro lado. “Está a ouvir-me bem?”, perguntam. “Sim” respondes tu, automaticamente. Acabaste de cair na armadilha. Essa pequena palavra de três letras, dita de forma inocente, é a chave para uma das burlas que mais cresce em todo o mundo. E quando deres conta por teres atendido números desconhecidos, podes ter contratos assinados em teu nome ou dinheiro a sair da conta.
A “Armadilha da Voz” quando atender números desconhecidos
Os burlões já não precisam das tuas passwords ou do PIN do cartão. Agora, eles querem a tua voz. O esquema é assustadoramente simples e eficaz:
A Chamada: O teu telefone toca. Muitas vezes usam spoofing (máscaras digitais) para o número parecer ser do teu banco, da EDP, da Vodafone ou de um serviço local.

A Pergunta Gatilho: Do outro lado, alguém (ou um robô) faz uma pergunta desenhada para arrancar um “Sim” imediato. Exemplos comuns: “Está a ouvir-me?”, “Fala com o titular da linha?”, “Consegue escutar bem?”.
A Gravação: Assim que dizes “Sim”, a chamada cai ou eles desligam.
A Montagem: É aqui que o crime acontece. Os criminosos pegam na gravação da tua voz a dizer “Sim” e editam o áudio. Colam a tua resposta afirmativa a perguntas que nunca ouviste, como “Autoriza este pagamento?” ou “Aceita este contrato de fidelização?”.
Não acontece só “lá fora”
Se achas que isto é coisa de filmes americanos, desengana-te.
Em Espanha, milhares de pessoas acordaram com contratos de luz e gás alterados porque “aceitaram” por telefone.
Nos EUA, bancos já rejeitaram devolver dinheiro a vítimas porque os burlões apresentaram “provas de voz” onde o cliente parecia autorizar a transação.
Em Portugal, as queixas sobem de tom, com relatos de subscrições “fantasma” em serviços pagos que as vítimas juram nunca ter ativado.

Porque é que caímos tão facilmente?
É reflexo. Fomos educados a ser educados. Quando alguém pergunta se ouvimos, o cérebro responde antes de desconfiar. Além disso, a tecnologia atual permite que a voz do outro lado soe profissional, calma e credível.
O que tens de fazer (A Regra de Ouro)
A partir de hoje, muda a forma como atendes o telemóvel. Se o número é desconhecido ou privado, elimina a palavra “Sim” do teu vocabulário inicial.
Usa alternativas neutras:
Em vez de “Sim?”, atende com “Estou.”
Se perguntarem “Está a ouvir?”, responde “Estou a ouvir, quem fala?”
Entretanto se perguntarem “É o Sr. João?”, responde “Quem o procura?”
Se insistirem muito para que digas “sim”, desconfia. Desliga imediatamente. Se for um assunto importante e legítimo, eles enviarão um email ou carta.
Já disseste “Sim”? Eis como agir
Se leste isto e pensaste “Oh não, fiz isto ontem”, não entres em pânico, mas age rápido:
Vigia o extrato: Assim nos próximos dias, controla a tua conta bancária e a fatura do telemóvel à procura de movimentos estranhos.
Contacta a operadora: Se aparecerem serviços que não pediste, reclama formalmente e indica que foste vítima de fraude.
Espalha a palavra: Os burlões contam com o nosso silêncio e vergonha.
Na era digital, a tua voz é uma assinatura. Não a ofereças a qualquer um.

