A exploração espacial está a viver uma era dourada, mas há um preço pesado a pagar na Terra. Efetivamente, uma nova investigação, ainda não revista por pares mas já disponível no servidor arXiv, lança um alerta vermelho: o lançamento massivo de satélites planeado para a próxima década pode tornar o céu noturno até três vezes mais brilhante do que é atualmente. Neste cenário, não estamos a falar apenas de perder a beleza das estrelas a olho nu. Estamos a falar de inviabilizar a astronomia terrestre de ponta, pondo em risco missões cruciais como as do novo Observatório Vera C. Rubin, no Chile. Então o que será de todas as observações com o fim das estrelas no céu?
Fim das estrelas no céu: a “invasão” das megaconstelações e dos gigantes espaciais
A tecnologia mudou e, com ela, a escala do que enviamos para o espaço. Desta forma, o problema já não se resume a alguns satélites solitários a passar. Na verdade, até abril de 2026, havia planos para lançar cerca de 1,7 milhões de satélites nos anos seguintes. Muitos destes fazem parte de “megaconstelações”, como a Starlink, que agrupam dezenas de milhares de unidades.

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Por conseguinte, a situação torna-se dramática devido a dois tipos de satélites específicos:
Os Gigantes de Comunicação: Satélites como os BlueWalker e BlueBird da AST SpaceMobile são do tamanho de um apartamento T1 ou de um campo de ténis, respetivamente. Sendo tão grandes, refletem imensa luz solar.
Os Espelhos de Potência Solar: A startup Reflect Orbital planeja lançar espelhos gigantes para o espaço para refletir luz solar para a Terra durante a noite, gerando energia solar. Naturalmente, estes espelhos seriam extremamente brilhantes, parecendo estrelas falsas e ofuscantes para os telescópios.
O efeito “cegueira” nos telescópios de ponta
Para perceberes a gravidade, importa notar que os telescópios modernos, como a câmara LSST do Observatório Vera C. Rubin, são desenhados com tempos de exposição longos para captar a luz ténue de galáxias distantes. Como resultado, qualquer satélite brilhante que cruze o campo de visão deixa um rasto de luz.
Olivier Hainaut, astrónomo do European Southern Observatory e autor do estudo, explica que isto causa um efeito secundário chamado “saturação cruzada” que multiplica o impacto do rasto brilhante. Isto significa que um único rasto pode arruinar uma imagem inteira. Além disso, a luz dos satélites é dispersa pela atmosfera, iluminando todo o céu e constituindo uma forma grave de poluição luminosa global.

O Pior Cenário: O Observatório Rubin inutilizado
Hainaut utilizou supercomputadores para simular as órbitas, o brilho e os movimentos de milhões de satélites. Ao que tudo indica, os resultados são assustadores.
Uma megaconstelação de 60.000 satélites, mesmo que todos fossem mais ténues do que a magnitude 7 (o limite de visibilidade a olho nu recomendado pelos cientistas em 2021), ainda assim saturaria entre 6% e 15% do campo de visão da câmara LSST do Observatório Rubin, apagando muitas observações.
Os satélites BlueBird, mesmo em pequeno número, apareceriam nas imagens como manchas brilhantes.
Contudo, o pior cenário envolve os satélites do tipo espelho da Reflect Orbital. O modelo mostrou que uma constelação de 50.000 destes satélites, a visão da empresa para 2035, poderia tornar o céu noturno três vezes mais brilhante do que é agora. Neste contexto, a câmara do Observatório Rubin, o “olho” mais poderoso do mundo para mapear o universo, tornar-se-ia praticamente inútil.
Anthony Mallama, investigador da União Astronómica Internacional, concorda com as conclusões, alertando que “satélites brilhantes impactarão significativamente a astronomia mesmo em números moderados”.
Evitar o apagão da astronomia terrestre
Entretanto para evitar o apagão da astronomia terrestre, os cientistas recomendam medidas drásticas. Hainaut sugere que a maioria dos satélites seja mais ténue do que a magnitude 7, o que exige que as operadoras apliquem revestimentos especiais para refletir a luz solar para o espaço. Além disso, defende que não devem ser permitidos mais de 10 satélites mais brilhantes que a magnitude 7 no céu ao mesmo tempo. Finalmente, o número total de satélites deve ser mantido abaixo de 100.000 para que as perdas de dados sejam comparáveis a outras perdas técnicas, como o mau tempo.





