Chove muito, mas a fatura da eletricidade não desce? Há uma explicação. Nas últimas semanas, basta olhar para as barragens para perceber que água não falta. Tem chovido como nunca, e de facto, tudo indica que pelo menos até dia 15 de Fevereiro, vai continuar a chover a níveis quase absurdos, e até perigosos para os nossos já saturados solos.
Dito isto, está a chover tanto, que as barragens têm andado a descaregar de uma forma que não é normal. Isto significa que os níveis de água subiram, e como tal, a produção hídrica aumenta. Assim, em teoria estamos a falar de uma das formas mais baratas de produzir eletricidade. A pergunta surge quase automaticamente, tanto em casa como nas empresas.
Dito tudo isto, se a energia é mais barata de produzir, porque é que a fatura continua igual… ou até mais cara?
A resposta está longe de ser simples, mas ajuda a perceber porque é que o consumidor raramente beneficia destas “boas notícias”.
O problema começa no mercado ibérico!

Portugal não decide sozinho o preço da eletricidade. Faz parte do MIBEL, o Mercado Ibérico de Eletricidade, partilhado com Espanha. Um mercado que funciona com uma lógica chamada marginalista.
Na prática, o preço final não é definido pela fonte mais barata, mas sim pela mais cara necessária para satisfazer a procura naquele momento.
Ou seja, mesmo que uma grande parte da eletricidade venha das barragens ou do sol, basta ser preciso recorrer ao gás natural para cobrir o resto do consumo para que seja esse gás, caro e volátil, a definir o preço de tudo.
Sim, leste bem. Mesmo que só uma parte da energia venha do gás, é essa parte que manda.
Renováveis não chegam sempre
A água e o sol são baratos, mas não são constantes. Há dias com chuva, outros sem ela. Há sol, mas não à noite. Quando a produção renovável não chega, entra o gás natural em cena.
E como o gás continua caro nos mercados internacionais, o preço final da eletricidade acaba por refletir isso, mesmo em semanas de barragens cheias.
É aqui que muita gente sente que algo não bate certo. E com alguma razão.
Porque é que a fatura não reage logo
Mesmo quando o preço de mercado baixa pontualmente, isso raramente chega ao consumidor final de forma imediata.

Primeiro, porque muitos contratos estão indexados ou fixados com base em previsões de longo prazo. O preço que estás a pagar hoje foi negociado meses atrás, não ontem porque choveu.
Depois, porque uma parte enorme da fatura não tem nada a ver com o custo da energia em si. Tarifas de acesso à rede, custos do sistema, taxas e impostos continuam exatamente iguais, faça sol ou chova como nunca.
E por fim, porque a gestão da água nas barragens não é feita ao dia. A produção é planeada para garantir eletricidade durante todo o ano, não apenas para aproveitar uma semana de chuva intensa.
No fundo, o sistema está feito para ser estável… e não barato
Tudo isto ajuda a explicar porque é que o discurso “temos muitas renováveis” raramente se traduz em contas mais baixas. O sistema foi desenhado para garantir fornecimento e estabilidade, não para refletir de forma imediata as condições meteorológicas.
Enquanto o preço continuar a ser definido pela fonte mais cara necessária em cada momento, o consumidor vai continuar a olhar para barragens cheias e a perguntar-se porque é que isso não se reflete na fatura.
A pergunta faz sentido. A resposta é que o mercado não joga a favor de quem paga.

