Nos últimos meses, as notícias parecem todas iguais: crimes violentos, pessoas comuns apanhadas em tragédias brutais e uma sensação crescente de insegurança. Quem não ficou chocado com a história da jovem ucraniana assassinada no metro nos Estados Unidos? Ou com os relatos de influenciadores mortos em circunstâncias suspeitas? E mesmo em Portugal, não param de surgir casos de homicídios em contexto doméstico ou em discussões banais que acabam em tragédia. Mas afinal, estamos mesmo perante uma fase de assassinatos a aumentar? Ou será que os números contam uma história diferente da perceção que temos ao abrir as redes sociais ou ver o noticiário?
Estados Unidos: queda nos homicídios, mas aumento no medo
À primeira vista, os EUA parecem o epicentro da violência. Casos de tiroteios em massa e homicídios aleatórios tornam-se virais em minutos. Mas quando olhamos para as estatísticas, a surpresa é grande:
Em 2024, o FBI registou menos 14,9% homicídios do que no ano anterior.
Os crimes violentos, no geral, também caíram cerca de 5%.
Muitas cidades que foram palco de grandes ondas de violência durante a pandemia viram os números regressar a níveis próximos do pré-2020.
Ou seja, a realidade é que a criminalidade violenta nos EUA está a cair. Então porque sentimos o contrário?
A resposta está no impacto mediático. O assassinato da jovem ucraniana Iryna Zarutska, esfaqueada num comboio em Charlotte por um agressor com histórico de problemas mentais, teve repercussão mundial. Não é um caso isolado, mas também não é representativo da tendência geral. É um crime brutal, amplificado pelas redes sociais, que cria a sensação de que “pode acontecer a qualquer um, em qualquer lado”.
Especialistas em criminologia reforçam: o problema não está em números a disparar, mas sim em falhas sistémicas como a reincidência de criminosos e a falta de acompanhamento em saúde mental.
Portugal: homicídios no nível mais alto da década
Se nos EUA os números caem, em Portugal a situação é mais delicada. O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) mostrou que em 2024 foram registados 112 homicídios dolosos, o valor mais alto da última década.
O que torna o cenário preocupante é que, enquanto a criminalidade geral caiu 4,6%, a criminalidade violenta e grave aumentou 2,6%.
E quando se analisa o tipo de homicídios, sobressai um dado inquietante: a maior parte continua a acontecer em contexto de violência doméstica ou de conflitos interpessoais. Discussões que começam por motivos aparentemente banais dinheiro, ciúmes, disputas familiares acabam em tragédia.
Também há sinais de aumento em confrontos entre jovens de bairros rivais e casos associados ao tráfico de droga. Não são ainda números alarmantes em comparação internacional, mas o crescimento consistente acende alertas entre as autoridades.
Porque sentimos que o mundo está mais violento e os assassinatos a aumentar?
A perceção de insegurança não depende apenas dos números. Há três fatores principais que explicam esta sensação:
A força das redes sociais
Hoje, cada crime é filmado, partilhado e comentado milhares de vezes. Um homicídio num metro em Charlotte ou num bairro de Lisboa transforma-se em conversa global em minutos.
Casos mediáticos e emocionais
Crimes contra jovens, mulheres ou figuras públicas mexem mais com a opinião pública. O mesmo homicídio, quando envolve uma vítima anónima ou um contexto menos “mediático”, dificilmente gera a mesma perceção de perigo.
Psicologia do risco
Quando ouvimos falar de um crime bárbaro, projetamos imediatamente o medo para a nossa realidade: “E se fosse comigo?”. Esse efeito psicológico faz parecer que o risco é maior do que realmente é.
O que dizem os especialistas
EUA: não há aumento generalizado. Pelo contrário, os homicídios estão a cair. O que preocupa são as falhas na prevenção, o fácil acesso a armas e a forma como doentes mentais reincidentes não recebem o acompanhamento necessário.
Portugal: há um aumento real de homicídios, ainda que em números absolutos baixos para padrões internacionais. O perigo maior continua a ser a violência doméstica, um problema estrutural difícil de combater apenas com policiamento.

Globalmente: a violência é cada vez mais mediática. Um crime em Lisboa pode ser notícia em Nova Iorque em segundos, alimentando uma sensação global de insegurança.
Mais medo do que crime?
Estamos a viver uma era paradoxal. Nos EUA, as estatísticas mostram queda na criminalidade, mas o medo está a aumentar. Em Portugal, os homicídios atingiram o nível mais alto em dez anos, mas o número continua baixo quando comparado com muitos outros países.
A grande questão é: será que o verdadeiro risco não está apenas nos homicídios, mas também na forma como percebemos e reagimos a eles?
Seja nos transportes públicos de Charlotte ou num bairro português, a violência tem hoje um megafone que nunca teve: as redes sociais. E isso, para muitos especialistas, pode ser tão perigoso quanto o crime em si.









