Há burlas que não começam com um link manhoso. Nem com um email cheio de erros. Começam com uma chamada normal, daquelas que atendemos quase por instinto. Do outro lado, alguém fala com confiança, faz-se passar por banco, por suporte técnico, por uma entidade oficial, ou por um familiar em apuros. A receita é sempre a mesma: urgência, pressão e medo. E é assim que, muitas vezes, o telemóvel deixa de ser um aparelho útil e passa a ser um risco constante, sobretudo para quem tem menos à-vontade com tecnologia. Foi precisamente a pensar nisso que Rita Barbosa, 24 anos, criou o Guardião, um protótipo de uma app com Inteligência Artificial que bloqueia burlas telefónicas antes da vítima sequer reagir.
O projeto foi desenvolvido em apenas dois dias e acabou por vencer um dos maiores eventos de programação com IA realizados na Alemanha, com centenas de participantes de dezenas de países.
A app que corta burlas telefónicas nasceu no hackathon
O hackathon teve 450 participantes de 48 países e exigia que cada projeto fosse construído em apenas dois dias. O Guardião ficou em primeiro lugar e a vitória trouxe um pacote de prémios, créditos e planos avaliado em 70 mil dólares, o equivalente a cerca de 59 mil euros.

A motivação vem de casa, e isso diz muito
A ideia do Guardião surgiu depois de a avó da criadora ter sido vítima de burla e ter perdido entre 3000 e 4000 euros. A parte mais pesada nem foi só o dinheiro. Foi o efeito psicológico: a avó acabou por ficar com medo do telemóvel e de tudo o que aparecia no ecrã.
E aqui está um detalhe importante: muita gente ainda olha para este tipo de casos como distração, ingenuidade, falta de cuidado. Na prática, o que existe é engenharia social, pressão emocional e táticas cada vez mais refinadas, desenhadas para apanhar alguém num segundo de hesitação.
O que é o Guardião e porque é diferente dos bloqueadores normais
Apps de spam e bloqueio de chamadas existem aos montes, mas a maioria vive de listas, bases de dados e denúncias comunitárias. Isso ajuda, mas não resolve o problema quando o atacante muda de número, usa spoofing, ou simplesmente liga com um guião convincente.
O Guardião tenta atacar o ponto central: o padrão de conversa e o comportamento típico de burla.
De acordo com a descrição divulgada através da Lusa, o Guardião usa um agente de IA que analisa chamadas e mensagens recebidas e, quando identifica burla, elimina a mensagem antes de ser lida ou interfere com a chamada antes de haver tempo para a vítima cair no esquema.
Há ainda um ponto que chama a atenção e que explica o impacto do projeto: o sistema pode precisar de ouvir o início da chamada para perceber o contexto e, segundo a criadora, consegue identificar em cerca de dois segundos se aquilo é tentativa de crime. Quando a confiança é alta, desliga a chamada automaticamente.
Na prática, a promessa é esta: não é a pessoa que tem de ser especialista em golpes. É a tecnologia que desconfia por ela.

Privacidade: a parte mais sensível, e o Guardião sabe disso
Quando se fala em IA a analisar chamadas, a primeira pergunta é inevitável: isto vai para servidores? Fica registado? Alguém pode ouvir?
Aqui, a informação publicada indica que a abordagem do Guardião tenta ser a mais segura possível para o utilizador: os dados não saem do dispositivo e ninguém tem acesso a conversas ou conteúdo pessoal.
Este detalhe é crítico para a adoção, especialmente num público mais velho. Uma app que protege mas invade privacidade não protege coisa nenhuma. Só muda o tipo de risco.
É mesmo plug and play, e isso interessa muito para o público-alvo
Outro ponto repetido na cobertura do projeto é a simplicidade: depois de instalada, a aplicação não obriga o utilizador a andar sempre a confirmar coisas ou a mexer em definições. A criadora diz que a pessoa não precisa de fazer praticamente nada para aquilo funcionar.
E faz sentido. Se a app é pensada para proteger quem tem menos literacia digital, então tem de ser invisível no dia a dia.
Quando chega e quanto vai custar
A previsão avançada na mesma informação da Lusa é que o Guardião fique disponível para download sem custos na Google Play Store até ao final de fevereiro de 2026.
No site oficial do projeto, a equipa apresenta o Guardião como uma solução de proteção para familiares e destaca a monitorização de chamadas e SMS, além de disponibilizar contactos de suporte e ligações para informação legal.

Entretanto o Guardião aparece numa altura em que até as grandes plataformas estão a empurrar medidas semelhantes. A Google, por exemplo, tem vindo a descrever funcionalidades de deteção de fraude em chamadas e mensagens com IA no dispositivo, focadas em identificar padrões de conversa típicos de esquemas em tempo real.
O que podes fazer já para proteger pais e avós
Enquanto soluções deste tipo não estão instaladas em todo o lado, há três regras simples que reduzem muito a probabilidade de burla:
- qualquer pedido urgente de dinheiro ou códigos, confirma sempre por chamada de volta para um número conhecido
- se a pessoa do outro lado mete pressa, ameaça ou cria pânico, assume risco alto e desliga
- ativa filtros de spam e silencia números desconhecidos em quem recebe chamadas constantes
No fundo, o Guardião é isto em modo automático. Um filtro que tenta garantir que a conversa perigosa nunca chega a começar. E, num país onde este tipo de burla já virou rotina, uma ideia destas pode mesmo fazer diferença.






