Depois de muitos holofotes em cima do ChatGPT, CoPilot e Gemini, de repente, toda a gente quer ter a sua própria Inteligência Artificial. Agora, as fabricantes de PCs querem convencer o mundo de que também conseguem criar assistentes inteligentes capazes de competir com aquilo que já existe no lado da OpenAI, Anthropic, Google e Microsoft.
O problema é simples. Querer não chega.
Qira, HP IQ e a nova obsessão das fabricantes
A Lenovo tem a Qira. A HP tem a HP IQ. No papel, a ideia até parece interessante.
São assistentes locais, a funcionar no teu PC, capaz de resumir emails, organizar notas, ajudar em reuniões, transcrever conversas, traduzir conteúdos e continuar fluxos de trabalho entre vários dispositivos.
Soa bem. Até demasiado bem.
A Lenovo quer fazer isto entre PCs e smartphones Motorola. A HP quer criar uma experiência comum entre portáteis, tablets e até impressoras. Sim, impressoras. Porque aparentemente alguém olhou para uma impressora e pensou “isto também precisa de IA”.
Mas…
A ideia é boa. A execução é que vai ser o problema!
A grande promessa aqui é a da chamada “super app” de IA. Uma interface única, simples, sempre presente, que depois chama as ferramentas certas por trás. Resumos, escrita, reuniões, pesquisa, automação, tudo no mesmo sítio.
Em teoria, faz todo o sentido. Mas depois aparece a realidade.
E a realidade é que a Microsoft já está a tentar isso com o Copilot, e está a falhar. Depois temos a OpenAI já está em todo o lado com o ChatGPT. A Anthropic também já ganhou espaço com o Claude. E a Google continua a empurrar o Gemini para todos os cantos possíveis.
Ou seja, as fabricantes de PCs não estão a entrar num mercado vazio. Estão a entrar tarde, e contra players que vivem disto a tempo inteiro. Curiosamente, com investimentos mais reduzidos, claro.
As fabricantes de hardware não têm o foco certo
Este é o verdadeiro problema. HP e Lenovo sabem fazer portáteis. Sabem vender hardware. Sabem gerir linhas de produto, margens, distribuição e design industrial. Mas uma plataforma de IA competitiva exige outra coisa completamente diferente.
Exige velocidade, foco, talento e capacidade de evolução constante.
Será que uma fabricante de PCs consegue atualizar os seus modelos, ferramentas, agentes e capacidades ao ritmo a que a OpenAI ou a Anthropic estão a mexer o mercado? Eu diria que não. Aliás, muitos destes projetos já nascem com um problema óbvio. Parecem demonstrações de feira tecnológica, mas ainda longe de serem ferramentas realmente indispensáveis.
A IA local faz sentido. Mas não resolve tudo!
Atenção, a ideia de correr IA no próprio dispositivo tem lógica. Se tens um portátil moderno com NPU, faz sentido usar esse poder para tarefas como transcrição, tradução, organização de notas ou pequenas ajudas de escrita.
É mais rápido, mais privado e potencialmente mais barato.
Mas o problema é que as tarefas mais avançadas continuam a viver na cloud. E vão continuar durante vários anos. Pesquisa avançada, compras, reservas, integração com bases de dados empresariais, acesso a documentos partilhados, tudo isso continua a depender de serviços online.
Ou seja, a vantagem da IA local existe, mas é limitada. Especialmente quando és quase sempre obrigado a ir à nuvem.
E depois há o problema do ecossistema
A Apple pode até ter alguma margem para fazer isto funcionar, porque controla smartphones, portáteis, tablets, relógios e tudo o resto. A Samsung ainda tem uma presença forte nos telemóveis e alguma expressão nos PCs.
Mas a HP? A Lenovo? A conversa já muda.
Quantas pessoas conheces que usam tudo da mesma marca? São raras.
A HP nem sequer tem uma presença relevante em smartphones. A Lenovo até tem a Motorola, mas está muito longe do peso que Apple ou Samsung têm nesse espaço. Por isso, vender a ideia de uma IA contínua entre dispositivos fica mais difícil do que parece nas apresentações.
O mercado já escolheu os seus favoritos!
Depois é isto… O utilizador já começou a escolher os seus assistentes favoritos. Uns usam ChatGPT. Outros usam Copilot. Outros vão para o Gemini. Alguns empresas olham para o Claude.
Ninguém anda propriamente à espera que a HP ou a Lenovo apareçam para salvar a revolução da IA nos PCs.
No final do dia, isto parece uma corrida sem sentido.
Quando olho para estes anúncios, a sensação que fica é muito simples. As fabricantes de PCs perceberam que a IA está a redefinir a forma como olhamos para tecnologia, e não querem ficar para trás.
O problema é que uma coisa é integrar IA num produto. Outra completamente diferente é liderar a conversa.









