Se costumas andar pelas ruas de Lisboa, Porto ou qualquer grande centro urbano, certamente já notaste que o tinido das moedas no bolso é um som cada vez mais raro. Atualmente, a digitalização dos pagamentos em Portugal, impulsionada pelo fenómeno do MB WAY e do contactless, está a provocar uma revolução invisível que vai muito além da conveniência bancária. Estamos a assistir à morte do pedinte tradicional. Também ao nascimento de uma nova e inquietante figura: o Pedinte Digital. Tudo isto devido ao fim das moedas.
O fim das moedas e a tecnologia que mata a esmola
Antigamente, a desculpa para não ajudar alguém na rua era quase automática: Desculpe, não tenho trocos. No entanto, hoje em dia, essa frase deixou de ser uma evasiva para se tornar uma realidade tecnológica. Como quase ninguém anda com dinheiro vivo, as pessoas em situação de carência e os artistas de rua necessitam de adaptar-se para não morrerem de fome.
Consequentemente, já se costumam ver cartazes com números de telemóvel para transferências imediatas ou até códigos QR pendurados ao pescoço. Embora pareça uma solução modernista, este cenário esconde um medo profundo: a exclusão digital. Quem não tem acesso a um smartphone, a uma conta bancária ativa ou a literacia tecnológica básica está a ser empurrado para uma invisibilidade total e absoluta.
O perigo da vigilância em cada cêntimo
Além disso, esta transição levanta questões éticas e de privacidade que deveriam deixar qualquer cidadão em alerta. Quando a caridade se torna digital, ela deixa de ser anónima. Portanto, cada cêntimo que dás através de uma plataforma fica registado num servidor, cruzado com os teus dados e monitorizado pelos algoritmos dos bancos.
Infelizmente, isto significa que o ato de ajudar alguém deixa de ser um gesto privado entre dois seres humanos. Isto para se tornar num ponto de dados num sistema financeiro ultra-vigiado. Se o dinheiro físico desaparecer por completo, o Estado e as instituições financeiras passarão a ter um controlo total sobre como, onde e a quem decides dar o teu apoio.
O que acontece quando o sistema falha?
Portanto, o medo de uma sociedade sem dinheiro vivo não é apenas uma teoria da conspiração; é uma preocupação real sobre a resiliência do sistema. Se a rede falhar, se o teu telemóvel ficar sem bateria ou se a tua conta for bloqueada por um erro de algoritmo (como vimos no artigo anterior), a tua capacidade de ajudar ou de ser ajudado desaparece instantaneamente.
Em suma, a morte das moedas é o primeiro passo para um mundo onde a tua existência depende inteiramente de uma ligação à internet. A próxima vez que vires alguém a pedir um MB WAY na rua, lembra-te que essa pessoa é o reflexo de um futuro onde a liberdade de circular com dinheiro anónimo está a chegar ao fim.










