Se costumas acompanhar as notícias sobre tecnologia e ambiente, certamente sabes que as beatas de cigarro são um dos maiores pesadelos ecológicos do planeta. No entanto, cientistas da Universidade de Henan, na China, parecem ter encontrado uma solução brilhante: transformar este lixo tóxico em baterias de alta performance. Será que vamos ter beatas de cigarros a alimentar os carros elétricos? Neste artigo, explicamos-te como este processo funciona e porque é que pode representar uma verdadeira revolução para o armazenamento de energia sustentável.
Vamos ter beatas de cigarros a alimentar os carros elétricos?
O problema do acetato de celulose
As beatas não são compostas apenas por papel e restos de tabaco. Pelo contrário, a maioria dos filtros integra acetato de celulose, um tipo de plástico que demora anos a decompor-se. Segundo a Organização Mundial da Saúde, estes resíduos libertam microplásticos, nicotina e metais pesados no solo e na água.

Por essa razão, a equipa de investigadores chineses percebeu que essa mesma estrutura celulósica, se for processada corretamente, constitui a base perfeita para criar elétrodos de carbono poroso.
O processo de transformação: De lixo a energia
A conversão das beatas em componentes para baterias acontece em duas fases técnicas principais. Em primeiro lugar, ocorre a fase da “panela de pressão”, onde as beatas são submetidas a um processo hidrotérmico para se transformarem em hidrocarvão.
Em segundo lugar, o hidrocarvão mistura-se com hidróxido de potássio (KOH) e leva-se a um forno a altas temperaturas num ambiente sem oxigénio. Consequentemente, este passo cria poros microscópicos no material, aumentando drasticamente a sua área de superfície e capacidade de reação.
A Química por trás da reciclagem
Para que possas entender o potencial deste material, é preciso olhar para a sua estrutura molecular. O segredo reside na elevada área de superfície criada durante a ativação com KOH. Ao reagir com o carbono a temperaturas elevadas, o composto atua como um agente de corrosão controlada, “escavando” uma rede complexa de nanoporos.
Graças a esta porosidade, os iões conseguem deslocar-se e fixar-se com muito mais facilidade, o que explica a alta densidade de potência dos dispositivos resultantes. Em suma, os cientistas transformam um polímero poluente numa “esponja” de carbono ultraeficiente para o transporte de eletrões.

Supercondensadores: O futuro da rede elétrica
Este material reciclado é ideal para criar supercondensadores. Ao contrário das baterias convencionais que libertam energia de forma gradual, os supercondensadores conseguem lidar com picos de procura energética de forma quase instantânea. Portanto, podem-se utilizar para:
- Estabilizar redes elétricas durante picos de consumo.
- Apoiar veículos elétricos em momentos de aceleração rápida.
- Desenvolver sistemas de filtragem de água mais avançados.
Embora os resultados em laboratório sejam muito promissores, o próximo grande desafio é a escala industrial. Os investigadores precisam agora de provar que este método se torna economicamente viável fora do ambiente controlado. Se este projeto avançar, poderemos estar perante um cenário onde o teu próximo gadget é alimentado por resíduos que antes poluíam as nossas ruas.

