A ideia do tutor não é nova em Portugal. Já existia um regime que possibilitava a existência de um tutor desde 2014. Porém, existiam várias limitações, como o ter 10 anos de carta, não ter sanções graves ou muito graves nos últimos 5 anos, e ainda o pequeno (grande) detalhe de ter de tirar um curso especializado.
Isso muda agora com um regime renovado, e bastante mais liberal. Mais concretamente, o documento aprovado abre a porta à formação com tutor para alunos com mais de 18 anos e que pretendam tirar a carta de condução relativa à categoria B, que inclui veículos ligeiros até 3.500 quilos e nove lugares.
Ou seja, quem quiser um tutor em vez das aulas tradicionais de qualquer escola de condução, apenas precisa de enviar um e-mail à escola de condução onde identifica o tutor, com uma declaração a garantir que os requisitos estão preenchidos. Onde o tutor pode ser a mãe, o pai, o irmão, etc… por exemplo.

Porém, vai existir uma limitação geográfica para a condução acompanhada que será definida pelos municípios e será obrigatório um seguro próprio que “cubra os danos causados pelo candidato”. Além disso, o aluno que seja ensinado por um tutor, precisa de fazer um teste de aferição na escola de condução, de forma a perceber o seu nível como potencial condutor encartado. (Depois do teste, a escola de condução pode aprovar a ida a exame, ou aconselhar mais aulas de condução).
Isto ainda está muito vago. Sendo exatamente por isso que pedi a opinião da minha mãe, instrutora de condução com mais de 30 anos de experiência, recentemente reformada. Uma pessoa que teve muitos atuais condutores a passar pelas suas mãos, tanto no lado do código, como na condução propriamente dita.
A Opinião de uma Instrutora!

Texto na ótica de Edite Oliveira. Ex-instrutora.
Não concordo! As primeiras lições sem carro adaptado (com duplo comando – acelerador, travão e embraiagem no lado do instrutor), e sem um tutor com real experiência de ensino, é algo grave não só para ambos, como também para todas as outras pessoas, sejam peões ou outros condutores.
É preciso perceber que numa escola de condução o aluno tem direito a 32 horas de ensino de condução (no mínimo), o que normalmente se traduz em 32 lições e 500 quilómetros percorridos. Um ambiente controlado, onde o instrutor tem comandos ao seu alcance para evitar males maiores. Comandos que são extremamente importantes nas primeiras 10 a 15 lições dependendo da capacidade do aluno. Isto para que exista uma maior segurança para o instrutor, para o instruendo, e para o trânsito em geral.
Afinal de contas, o aluno está a conduzir no meio de todos nós. É preciso ter em conta, que uma pessoa que nunca conduziu na vida, não tem noção nem reflexos, para ter um tempo de reação competente. Como por exemplo, ao chegar a uma passagem para peões, uma rotunda ou um STOP.
O que é que se pode fazer?
O tutor pode fazer sentido, mas apenas quando o aluno já tem alguma noção daquilo que é a prática da condução em trânsito real.

Este tipo de ensino não é feito num simulador. É um automóvel, inserido num sistema rodoviário com muitos outros veículos à sua volta.
Ou seja, eliminar completamente o instrutor, pode ser um erro grave.
O que poderia acontecer, seria um meio-termo. As aulas iniciais, sempre mais importantes, podiam ser feitas numa escola de condução, com um carro adaptado e um instrutor credenciado para o efeito. Depois dessas aulas iniciais, um tutor pode fazer todo o sentido para aumentar as horas ao volante e quilómetros percorridos.
Aliás, aos dias de hoje, como ex-instrutora com 30 anos de experiência, sem carro adaptado, nunca iria meter um aluno numa zona urbana. Iria sempre preferir uma zona mais calma e isolada, onde existem menos perigos. Ou seja, uma zona sem passeios, sem passagem de peões, sem ciclovias, sem rotundas, sem cedências de passagem, sem STOPs, etc…
Conclusão
Uma mudança pode fazer sentido. Até porque as escolas de condução têm demasiado poder nos dias que correm, sendo exatamente por isso que se multiplicam os esquemas para “vender” cartas.
Mas, é uma mudança que pode ter consequências graves se não for bem pensada.

