O coração afinal consegue regenerar-se após um enfarte

Durante décadas, repetiu-se a mesma ideia: o coração humano quase não se repara. Ao contrário da pele (que fecha feridas) ou do fígado (que tem uma capacidade notável de regeneração), o músculo cardíaco parecia condenado a ficar com marcas permanentes após um enfarte. Só que investigadores na Austrália acabam de apanhar algo que muitos suspeitavam… mas ninguém tinha conseguido provar de forma tão direta: células do músculo cardíaco humano a criar novas células depois de um ataque cardíaco. E isto é importante por um motivo simples: um coração com cicatriz não bate como antes. A questão é perceber se conseguimos transformar esta capacidade mínima numa arma real contra insuficiência cardíaca. Isto porque afinal o coração consegue regenerar-se após um enfarte.

O que acontece ao coração num enfarte (e porque a cicatriz é um problema)

Quando o fluxo de sangue é bloqueado (por exemplo, numa artéria coronária), parte do coração fica sem oxigénio. Sem oxigénio, células morrem. O corpo tenta remendar o estrago… mas o remendo costuma ser tecido cicatricial: fibroso, rígido, pouco elástico e  este é o ponto-chave não contrai como músculo.

Nova IA descobre problemas cardíacos e risco de quedas, já viu o que o telemóvel está a fazer ao seu coração? (não é bom)

Resultado: mesmo que a pessoa sobreviva ao enfarte, fica com uma área do coração que já não contribui para bombear sangue. Isso pode criar um efeito dominó: o coração trabalha mais para compensar, remodela-se, perde eficiência e, em alguns casos, evolui para insuficiência cardíaca e risco de novos eventos.

A diferença dos ratos e a grande dúvida nos humanos

Em modelos animais (especialmente em ratos), já se tinha observado algo fascinante. Assim após enfarte, alguns cardiomiócitos (as células musculares do coração) conseguem voltar a dividir-se, ainda que de forma limitada. O problema sempre foi este: em humanos adultos isso parecia raro demais para fazer diferença e faltava uma prova sólida em tecido humano vivo, analisado com detalhe.

O que este estudo encontrou

A equipa liderada por investigadores da Universidade de Sydney analisou um coração humano inteiro de um dador declarado em morte cerebral (um caso considerado único, com contexto pós-enfarte). Isto permitiu observar tecido cardíaco em condições especiais e amostras recolhidas durante cirurgia de bypass (em doentes), para comparar e validar padrões.

Em vez de olharem apenas para uma fotografia, os cientistas fizeram um mergulho completo no funcionamento do tecido: sequenciação de RNA, análise de proteínas e do metabolismo.

O achado central: após um enfarte, o coração humano aumenta sinais associados à divisão celular dos cardiomiócitos (mitose e até evidências de processos ligados à formação de novas células). Ou seja, mesmo com cicatriz, há um esforço interno do coração para gerar músculo novo.

E isto bate certo com o que o primeiro autor, o cardiologista Robert Hume, descreve. Há produção de novas células musculares, mas não ao ponto de anular o estrago do enfarte.

corações com problemas têm poderes de auto-cura

Então… isto significa que o coração se cura sozinho? Ainda não.

Aqui é onde muita gente se pode enganar (e onde a Leak tem de ser clara):

Sim, há regeneração/renovação de músculo cardíaco em humanos algo que abala a narrativa do zero regeneração.

Não, isto não quer dizer que um enfarte já não é grave ou que o corpo resolve tudo sozinho. A cicatriz continua lá, o músculo novo parece ser insuficiente para reverter por completo a perda, e as consequências do enfarte continuam devastadoras.

A descoberta é, sobretudo, uma porta aberta. Assim se o coração já tem um modo regeneração (mesmo fraco), talvez seja possível amplificar isso com terapias futuras e aí sim, mudar o prognóstico de milhões de pessoas.

Siga a Leak no Google Notícias e no MSN Portugal.

Receba as notícias Leak no seu e-mail. Carregue aqui para se registar É grátis!

Bruno Fonseca
Bruno Fonseca
Fundador da Leak, estreou-se no online em 1999 quando criou a CDRW.co.pt. Deu os primeiros passos no mundo da tecnologia com o Spectrum 48K e nunca mais largou os computadores. É viciado em telemóveis, tablets e gadgets.

Em destaque

Leia também