Lua está a roubar a atmosfera da Terra há milhões de anos

Um novo estudo revela que a relação entre o nosso planeta e o seu satélite é muito mais íntima e complexa do que pensávamos. O vento solar e o campo magnético da Terra criaram uma espécie de autoestrada de partículas. Se achavas que a Lua estava lá apenas a orbitar, a controlar as marés e a inspirar poetas, temos novidades. De acordo com um artigo recente da CNN, a ciência acaba de confirmar que a lua tem andado, literalmente, a roubar atmosfera da Terra há milhares de milhões de anos.

Lua está a roubar a atmosfera da Terra há milhões de anos

Esta descoberta vem resolver um mistério que dura há mais de meio século, desde que as missões Apollo trouxeram para cá amostras de solo lunar (o chamado rególito). Nessas amostras, os cientistas encontraram vestígios de água, dióxido de carbono, hélio e nitrogénio. A grande questão sempre foi: como é que isso foi lá parar?

O campo magnético: De escudo a entregador

Inicialmente, pensava-se que o Sol era o responsável por depositar estes elementos. Mais tarde, em 2005, surgiu a teoria de que a Terra jovem, antes de ter o seu campo magnético totalmente formado, poderia ter deixado escapar atmosfera para o espaço. A ideia geral era que, assim que o campo magnético da Terra se formou, ele teria bloqueado essa fuga, agindo como um escudo.

No entanto, a nova investigação citada pela CNN vira essa teoria do avesso. O estudo, liderado por investigadores da Universidade de Rochester e publicado na Nature Communications Earth & Environment, sugere que o campo magnético da Terra não só não bloqueou a transferência, como provavelmente ajudou a que ela acontecesse. E continua a acontecer hoje.

Como funciona este roubo?

O processo é fascinante. O campo magnético da Terra protege-nos do vento solar, mas não é um escudo perfeito. Ele cria uma estrutura chamada magnetosfera, que tem uma cauda longa (como um cometa) que se estende para o lado oposto ao Sol.

Quando a Lua está na fase de Lua Cheia, ela passa diretamente por essa cauda magnética. Durante esses dias, abre-se um canal direto. O campo magnético, em vez de prender a atmosfera, acaba por guiar partículas de oxigénio e nitrogénio da Terra diretamente para a superfície lunar. Como a Lua não tem atmosfera para bloquear a entrada, essas partículas enterram-se no solo e ficam lá preservadas.

modo lua

Porque é que isto interessa para o futuro?

Isto não é apenas uma curiosidade histórica; tem implicações práticas enormes para a exploração espacial.

Segundo os especialistas ouvidos pela CNN, a presença destes elementos no solo lunar é uma mina de ouro para futuras colónias. Se houver oxigénio e hidrogénio acessíveis no rególito, as futuras missões podem processar água e criar combustível no local, em vez de terem de transportar esses recursos pesados e caros a partir da Terra. Já existem estudos sobre combustíveis à base de amoníaco que aproveitariam precisamente o nitrogénio que a Terra ofereceu à Lua ao longo das eras.

Confirmado por simulações e pelas Apollo

Para chegar a esta conclusão, os cientistas correram simulações de computador comparando a Terra antiga (sem campo magnético) com a Terra moderna. O resultado foi claro: a configuração atual é muito mais eficiente a enviar atmosfera para a Lua.

Estes dados foram depois cruzados com as análises das amostras trazidas pelas missões Apollo 14 e 17, confirmando que a mistura de isótopos no solo lunar bate certo com a fuga atmosférica terrestre.

Basicamente, a Lua funciona como uma cápsula do tempo. Ao analisarmos o solo lunar, estamos também a analisar a história química da atmosfera da Terra ao longo de milhares de milhões de anos. E com as novas amostras trazidas pelas missões chinesas Chang’e-5 e Chang’e-6, vamos ter ainda mais dados para confirmar como os dois corpos celestes evoluíram juntos, numa troca constante de materiais.

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Bruno Fonseca
Bruno Fonseca
Fundador da Leak, estreou-se no online em 1999 quando criou a CDRW.co.pt. Deu os primeiros passos no mundo da tecnologia com o Spectrum 48K e nunca mais largou os computadores. É viciado em telemóveis, tablets e gadgets.

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