Fiz um ano de imunoterapia num hospital privado em Portugal. Só essa parte do tratamento rondou os 160 mil euros, muito mais eficaz do que a quimioterapia convencional no meu caso. Estou vivo graças a isso e eternamente grato ao Hospital da Luz. Mas não consigo deixar de fazer esta pergunta: quem é que fica para trás quando a sobrevivência depende de números assim?
Há uma pergunta que me tem acompanhado nos últimos tempos: quanto custa, afinal, estar vivo em Portugal?
No meu caso, há um número que nunca mais vou esquecer: 160 000 euros.
Foi mais ou menos isso que custou um ano de imunoterapia que fiz contra a leucemia, num hospital privado, o Hospital da Luz. Estamos a falar só desta parte específica do tratamento: um protocolo moderno, muito mais eficaz do que a quimioterapia convencional no meu caso, com ciclos sucessivos, monitorização constante e tudo o que vem agarrado a uma guerra destas.

E digo isto com toda a honestidade: se não tivesse tido acesso a este tratamento, dificilmente estaria aqui a escrever estas linhas. Também se não tivesse tido a ajuda da Multicare que suportou grande parte do tratamento e a possibilidade de fazer empréstimos.
Quando a nossa vida passa a ter um preço
Um dia estás numa consulta “normal”. No outro, passas a ser “o doente oncológico”, com exames atrás de exames, planos de tratamento, datas marcadas no calendário e uma pilha de papéis que não escolheste.
Entretanto no meio disto tudo, vem outra pancada: perceber quanto vale, em dinheiro, a tua hipótese de continuar vivo.
No meu caso, esse valor andou à volta dos tais 160 mil euros. Não é uma fatura abstrata: é uma conta muito concreta, com impacto real na tua vida, no teu futuro, nas tuas decisões.
Foram muitas as noites sem dormir: umas por causa das dores, outras por causa dos efeitos secundários… e outras, talvez as piores, por saber que tinha a vida hipotecada a um tratamento de 160 mil euros. Não era só o medo da doença, era o peso de sentir que a minha sobrevivência estava ligada a uma conta que, para muita gente, é simplesmente impossível de suportar.
E antes que alguém interprete mal: este texto não é um ataque ao Hospital da Luz. Pelo contrário.
É, acima de tudo, um testemunho de gratidão.

Imunoterapia: quando a ciência funciona… e a realidade dói
A imunoterapia não é um “tratamento mágico”, mas é uma arma brutalmente poderosa.
No meu caso, fez toda a diferença:
- foi muito mais eficaz do que a quimioterapia convencional
- permitiu atacar a doença de forma mais direcionada
- deu-me probabilidades reais de chegar vivo ao fim desta linha
Só que cada sessão, cada frasco, cada minuto de hospital tem um preço. E quando juntas tudo ao fim de um ano, chegas a valores que não parecem reais. Parece ficção científica, mas não é: é a fatura da tua vida.
E é aqui que a pergunta volta a bater forte:
“Se eu não tivesse tido acesso a este protocolo, eu estava onde hoje?”
“E quantas pessoas com diagnósticos semelhantes nunca chegam sequer perto desta hipótese?”
Público, privado e a lotaria de quem chega a tempo
Em Portugal, adoramos discutir “SNS vs. privados”, como se fosse um derby de futebol.
Mas, neste tema, para mim, a conversa é outra:
- o tratamento existe
- há equipas capazes de o aplicar
- há hospitais com condições
- mas nem toda a gente consegue lá chegar
Quem tem seguro, poupanças, família que ajuda, ou simplesmente sorte, consegue empurrar a porta certa a tempo. Quem não tem, muitas vezes fica preso entre listas de espera, orçamentos apertados, decisões burocráticas e notícias de contratos chumbados, fármacos adiados, “não há verba este ano”.
E isto abre outra pergunta desconfortável: quando o sistema não consegue pagar, quem é que paga com a própria vida?

O paradoxo português: o tratamento existe, a burocracia é que decide
O que torna tudo isto ainda mais cruel é o paradoxo:
- não estamos a falar de doenças “sem tratamento”
- em muitos casos, os medicamentos existem, os protocolos existem, as equipas existem
- mas depois aparecem paredes invisíveis:
- regras de financiamento
- tetos de despesa
- vistos, autorizações, contratos, concursos
Para quem está do lado de cá, doente, a sensação é esta: tu lutas contra as células erradas no teu corpo, enquanto o sistema luta contra números numa folha de Excel. E, às vezes, quem perde és tu.
Eu não tenho resposta mágica. Sei que as contas públicas não se fazem com emoções, sei que há leis, sei que não se pode fingir que o dinheiro é infinito. Mas também sei o que é viver com a noção clara de que, noutro contexto, eu podia ser a pessoa que ficou do lado errado da decisão.
Hospital da Luz: gratidão absoluta, sem “mas”
Por isso quero escrever isto de forma muito clara: eu estou vivo porque tive acesso a um tratamento de ponta e a uma equipa que não desistiu de mim.
No Hospital da Luz encontrei:
- médicos que me explicaram tudo, sem esconder o difícil, mas sem matar a esperança
- enfermeiros que seguraram a parte emocional quando o corpo já não se aguentava
- profissionais que me trataram como pessoa, não como número de processo
Não é publicidade. É gratidão. Gratidão por cada consulta em que saí com um pouco mais de luz do que escuridão. Também gratidão por cada noite em que alguém me disse “vai correr bem”, mesmo quando eu próprio não acreditava. Gratidão por poder escrever este texto e não ser apenas mais um número numa estatística qualquer. Gratidão também ao Dr José Carda do Hospital da Luz que para mim é o melhor hematologista em Portugal e super-humano.
Ao Hospital da Luz e a quem lá me acompanhou: obrigado. Mesmo.
O preço de estar vivo… e de saber disso
Há coisas que esta conta de 160 mil euros me ensinou:
A saúde nunca é “de borla”. Alguém paga sempre: o Estado, o seguro, a família, o próprio doente. Fingir que não é assim só ajuda a manter o problema escondido.
Viver num país onde o acesso depende tanto do contexto é assustador. Não devia ser preciso ter o seguro certo ou o salário certo para ter uma hipótese justa.
Precisamos de falar disto sem vergonha. Enquanto estes números ficarem enterrados em relatórios e decisões técnicas, vai parecer normal que haja tratamentos só ao alcance de alguns.
A gratidão não apaga a revolta. Posso estar eternamente grato ao Hospital da Luz e, ao mesmo tempo, profundamente preocupado com um sistema que deixa demasiada gente para trás.

Então… qual é o preço para se estar vivo em Portugal?
No meu caso, a resposta cabe numa frase: o preço de estar vivo rondou os 160 mil euros em imunoterapia, ao longo de um ano.
Mas a pergunta verdadeira é outra:
“Quantas pessoas não chegam sequer a saber qual seria o preço delas, porque o sistema nunca lhes dá essa hipótese?”
Este texto não é contra médicos, enfermeiros ou quem todos os dias faz milagres num SNS estrangulado. É um apelo para olharmos de frente para esta realidade:
Que país somos nós, se o acesso ao que salva vidas depende cada vez mais do código postal, do tipo de seguro e da forma como consegues pagar a conta?
Eu tive a sorte de estar deste lado.

