Visa quer meter IA a decidir disputas? Nem isto escapa à moda da inteligência artificial? Caso não saibas, a Visa processou mais de 106 milhões de disputas em 2025. Sim, leste bem. 106 milhões. É um número absurdo, mas ao mesmo tempo explica muito o tamanho da empresa, e seu alcance global.
Nos dias que correm, compramos mais online, pagamos mais com cartão, usamos mais serviços automáticos, subscrições, apps e plataformas. E, como seria de esperar, também há mais problemas, mais confusão e mais dinheiro em disputa.
A resposta da Visa? Meter inteligência artificial ao barulho. Porque, pelos vistos, até as reclamações e os chargebacks já são demasiado chatos para continuar a depender de seres humanos.
Visa quer automatizar as disputas. E acredita que isso até pode render dinheiro
Pois bem, a parte mais curiosa desta história nem é a Visa querer usar IA. Hoje em dia toda a gente quer usar IA para alguma coisa. O que realmente chama a atenção é a forma como a empresa fala deste tema. A gestão de disputas deixou de ser vista como um problema operacional chato de bastidores, para passar a ser tratada como uma oportunidade de negócio.
Ou seja, aquilo que antes era custo, trabalho manual e dor de cabeça, passa agora a ser uma área onde a Visa quer cortar perdas, acelerar decisões e, no fundo, meter mais eficiência.
É inteligente. Mas também é um bocadinho assustador.
Quando os pagamentos crescem, os problemas crescem atrás?
No fundo, isto até faz sentido. O pagamento digital já é a base do comércio moderno.
Mais compras, mais subscrições, mais fraude, mais confusão com cobranças, mais clientes a dizer “eu não fui”, “não reconheço isto”, “isto foi cobrado duas vezes”, ou o clássico “esqueci-me completamente desta renovação automática e agora quero o dinheiro de volta”.
É precisamente aqui que a Visa quer entrar com IA. Muitos dos casos são simples de resolver, e por isso, uma IA pode pura e simplesmente tomar conta de todo o sistema.
O problema é que esta área sempre precisou de contexto…
Meter IA no meio disto tudo pode ajudar muito a acelerar o processo. Mas também levanta uma pergunta importante. Até que ponto queremos mesmo automatizar decisões que mexem com dinheiro, culpa e responsabilidade?
Porque uma coisa é a IA resumir documentos. Outra bem diferente é começar a influenciar, ou até a decidir, quem tem razão, e porque tem razão.
Pode funcionar para casos simples, mas… Para outros mais complicados, pode correr mal.
Mas já sabemos como estas histórias começam
A parte engraçada é que a lógica é sempre a mesma. Primeiro a IA chega para ajudar. Depois chega para simplificar. Depois chega para decidir quase tudo sozinha, porque afinal “os resultados são bons” e “o sistema é mais eficiente”.
O setor financeiro adora eficiência, adora cortar custos, adora reduzir contacto humano e adora tudo o que transforme um processo complexo num fluxo mais barato e mais automático. O problema é que, quando algo corre mal, quem fica a olhar para uma decisão fria e automática és tu.
Conclusão
A Visa quer meter inteligência artificial a tratar de uma das partes mais chatas, caras e sensíveis do mundo dos pagamentos. E, sendo honestos, percebe-se porquê. 106 milhões de disputas num ano não são brincadeira.
O problema é que este tipo de automação nunca vem só com ganhos. Vem também com uma pergunta incómoda. Quanto mais decisões forem empurradas para sistemas automáticos, menos espaço sobra para o bom senso humano quando alguma coisa corre mal.
No papel, parece uma evolução natural. Especialmente nos tempos que correm. Mas, na prática, pode ser mais um passo num mundo em que até discutir uma cobrança errada vai começar a parecer uma conversa com uma parede muito educada.









