A inteligência artificial avança a uma velocidade que já preocupa os próprios criadores e agora também Bruxelas. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que vai convidar os principais laboratórios de IA (como a OpenAI, a Anthropic e a Google DeepMind) para discutir formas de abrandar o ritmo de desenvolvimento das capacidades mais avançadas. É um sinal de que o tema saltou das empresas para a agenda política europeia.
O que foi anunciado
No Parlamento Europeu, a 16 de setembro, von der Leyen usou uma expressão que tem circulado no setor: “pace the frontier” (“regular o ritmo da fronteira”). A ideia proposta pela própria Anthropic e apoiada por responsáveis da OpenAI, Google DeepMind e xAI é encontrar formas de não deixar a tecnologia evoluir mais depressa do que a capacidade de a controlar em segurança.

Convém guardar a devida cautela: a Comissão ainda não anunciou data da reunião, que empresas vão participar, que obrigações resultarão dela nem qualquer nova lei. E, muito importante, não existe nenhuma suspensão europeia do treino ou do lançamento de modelos de IA. Por agora, é uma intenção de diálogo — não uma regra.
Porque é que isto é diferente
A União Europeia já tem o AI Act, a sua lei para a inteligência artificial. Mas a discussão agora concentra-se num problema mais recente e mais difícil. Os modelos que podem aumentar rapidamente as próprias capacidades, operar de forma autónoma (como “agentes”) ou ter consequências difíceis de prever com os testes tradicionais.
Ou seja, transforma uma iniciativa que era voluntária dos laboratórios num assunto formal da agenda europeia. Qualquer compromisso que venha a sair daqui pode, no futuro, afetar as versões dos modelos disponibilizadas a empresas e consumidores europeus. Mas, sublinhe-se, uma reunião não é uma nova regra, é o início de uma conversa.
Nem todos concordam
A proposta de “abrandar” está longe de ser consensual na indústria. Enquanto a Anthropic e a OpenAI a apoiam, outras empresas, como a Meta e a Nvidia, têm-se mostrado contra travões ao desenvolvimento, argumentando que isso poderia atrasar a inovação e beneficiar concorrentes de fora da Europa (nomeadamente da China). É um debate de fundo sobre até onde se deve controlar uma tecnologia tão poderosa.

E há mais: redes sociais para menores
No mesmo discurso, von der Leyen confirmou outra intenção com impacto direto nas famílias. Propor uma restrição do acesso às redes sociais para menores de 15 anos, exigindo às plataformas que demonstrem a segurança dos seus serviços. Os detalhes deste futuro “EU Kids Act” deverão ser conhecidos em breve e é um tema que promete dar que falar em Portugal, onde o debate sobre crianças e ecrãs está bem vivo.
No fundo, o que este anúncio mostra é uma mudança de tom. Depois de anos a correr atrás da tecnologia, a Europa quer sentar-se à mesa com quem a constrói para tentar perceber se, e como, é possível abrandar a corrida antes que ela fique impossível de acompanhar.








