Abres o painel do carro, olhas para aquele buraco redondo e a pergunta aparece sozinha: ainda faz sentido isto existir? Hoje quase ninguém acende cigarros ali, e quem fuma usa cada vez mais dispositivos que carregam por USB. A resposta é que o isqueiro já desapareceu há muito. Ficou o buraco e ficou por razões que não têm nada a ver com tabaco.
O isqueiro já não vem de série
Comecemos pela parte que muita gente não deu por ela. Os carros modernos deixaram de incluir isqueiros como equipamento de série.
As razões são várias e cruzam-se: o declínio no número de fumadores, a maior sensibilização para os riscos do tabaco e preocupações de segurança, usar um isqueiro a conduzir é uma distração e um potencial risco de incêndio em caso de mau uso. Em vários países há ainda legislação que proíbe fumar no carro na presença de menores.

Alguns fabricantes mantêm-no como opção. A Porsche, por exemplo, oferece-o junto com o cinzeiro num “kit para fumadores”. Mas é hoje uma característica de nicho, pouco pedida.
Por que é que o buraco ficou
E aqui está o essencial da história. Aquela tomada foi inicialmente projetada para alimentar um isqueiro aquecido eletricamente, mas acabou por se tornar um conector DC padrão de facto para fornecer energia a acessórios portáteis a partir do sistema elétrico do veículo.
Ou seja: os fabricantes e os consumidores perceberam que a tomada servia para muito mais, e o mercado encheu-se de acessórios feitos para encaixar ali. Carregadores, ventoinhas, frigoríficos portáteis, bombas de ar elétricas, inversores de corrente.
O formato sobreviveu porque já estava em todo o lado. É um caso clássico de compatibilidade com o passado: ninguém escolheria hoje aquele conector de raiz, é grande, desajeitado e menos fiável do que alternativas mais modernas, mas trocá-lo significava deixar milhões de acessórios sem utilidade.
Porque é que o USB não a substituiu
Esta é a pergunta seguinte, e tem resposta prática: potência.
Comparadas com portas USB comuns, as tomadas de 12 V oferecem geralmente uma saída de energia superior. É isso que as torna adequadas para equipamentos maiores, compressores de ar, frigoríficos, ferramentas de emergência. São também concebidas para aguentar vibração, variações de temperatura e uso continuado, e integrá-las num carro é barato para o fabricante.
Um exemplo concreto que provavelmente te diz alguma coisa: os mini compressores para encher pneus ligam praticamente todos a 12 V, não a USB. Sem aquela tomada, ficavas sem forma de os usar no carro.
O pormenor que quase ninguém sabe
E aqui vai o detalhe que vale o artigo todo: nem todas essas tomadas aguentam um isqueiro.
Muitos carros trazem várias tomadas, no banco traseiro, na bagageira. Essas costumam ter uma tampa de plástico e estão identificadas como sendo apenas para alimentação DC, precisamente porque não foram concebidas para suportar o calor produzido por um isqueiro elétrico.

Traduzido: se comprares um isqueiro avulso e o enfiares na tomada errada, podes danificá-la. O formato é o mesmo; a função não é.
E nos elétricos?
Aí a história pode acabar mesmo. Há elétricos que já dispensam completamente a tomada de 12 V, o Porsche Taycan é um deles, e nesse caso o kit para fumadores inclui apenas o cinzeiro.
Faz sentido: nos carros desenhados de raiz para uma arquitetura nova, não há herança nenhuma a respeitar. O que não deixa de ser irónico, a tomada que sobreviveu ao fim do tabaco no automóvel pode acabar vítima da transição elétrica.






