Erro comum ou inveja: confundir bons textos com inteligência artificial

Nos últimos meses, instalou-se uma nova mania na Internet: tudo o que está bem escrito, sem erros e com uma estrutura clara, é logo acusado de ter sido feito por inteligência artificial. Sobretudo pela concorrência que muitas vezes fala devido à chamada dor de cotovelo. Afinal de contas o sucesso incomoda muita gente. Mas será mesmo assim? Será que a boa escrita deixou de ser humana? Os textos são todos feitos com inteligência artificial? Ou será que estamos a confundir qualidade com artificialidade?

A verdade é bem diferente e, se não prestares atenção, podes estar a cair num dos maiores equívocos da era digital.

Quando escrever bem se torna suspeito

Abres um artigo online e lês um texto fluído, sem erros ortográficos, com ideias bem encadeadas e frases que não parecem ter sido escritas à pressa. O mais certo é que alguém, nos comentários, largue a frase da moda: “Isto foi feito por IA!”.

Curioso, não é? Parece que, para muita gente, o verdadeiro humano escreve mal: cheio de erros, repetições sem sentido e frases que não levam a lado nenhum. Mas será que a realidade é mesmo essa?

O segredo por trás da escrita dos sites

A resposta está no funcionamento da próprio Google. Quando um site quer aparecer bem posicionado nas pesquisas ou no Discover, não basta escrever o que lhe apetece. Há regras claras e quem não as segue, desaparece da Internet.

É por isso que muitos textos online parecem ter um estilo parecido. Não é porque foram feitos por robôs, mas porque seguem os critérios que o Google valoriza:

  • Palavras de transição como “assim”, “entretanto”, “por isso” ou “no entanto”. Ajudam a dar fluidez e a manter o leitor preso.
  • Repetição estratégica de palavras-chave. Não é descuido, é técnica: reforça a relevância do artigo para o algoritmo.
  • Links internos e externos. Servem para criar autoridade, dar mais contexto e mostrar que o conteúdo está integrado num ecossistema maior.
  • Parágrafos curtos e diretos. Porque ninguém lê blocos enormes de texto no telemóvel.

Tudo isto faz parte de um trabalho consciente. Não é IA é SEO.

Escrever humanamente não é escrever mal

Existe uma ideia perigosa de que escrever humanamente é sinónimo de escrever com erros, frases mal construídas e textos mal acabados. Mas escrever mal nunca foi humano, foi sempre apenas… escrever mal.

inteligência artificial não representa um perigo para os humanos!

A verdadeira escrita humana distingue-se pela sinceridade e pela intenção de comunicar.

É quando o autor não escreve só para agradar ao Google, mas também para falar com quem lê.

Para além disso há emoção, contexto e até storytelling, que ligam o leitor ao texto.

É quando consegues sentir que, por detrás das palavras, está alguém real, com uma opinião ou experiência.

Isso torna-se impossível de falsificar de forma perfeita, mesmo com IA.

A Google também não é ingénua

Entretanto muitas pessoas acreditam que basta encher textos com palavras-chave e repetições para enganar o algoritmo. Mas a Google está cada vez mais sofisticado.

Hoje em dia, os motores de busca conseguem perceber quando um conteúdo é vazio, falso ou simplesmente copiado. O que a Google valoriza de verdade é conteúdo útil, claro e bem escrito.

Ou seja: o que muitos acusam de ser “IA”, é exatamente o que faz com que um site seja bem classificado e o que prova que alguém investiu tempo e cuidado no texto.

A grande ironia digital

Vivemos uma contradição:

  • Um texto bem escrito, que se devia valorizar, é visto como suspeito.
  • Um texto mal feito, com erros e frases partidas, aplaude-se como “autêntico”.

Ou seja, a qualidade virou sinal de artificialidade. Agora até todos têm medo de usar os travessões. Mas no fim, quem perde é o leitor que deixa de saber distinguir entre clareza e truques baratos.

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Bruno Fonseca
Bruno Fonseca
Fundador da Leak, estreou-se no online em 1999 quando criou a CDRW.co.pt. Deu os primeiros passos no mundo da tecnologia com o Spectrum 48K e nunca mais largou os computadores. É viciado em telemóveis, tablets e gadgets.

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