A Tesla voltou a mexer nas regras do jogo. E, desta vez, não é com hardware novo, nem com uma revolução tecnológica. É com algo bem mais simples e bem mais polémico, e que de facto é uma estratégia que outras fabricantes já tentaram implementar com pouco sucesso.
Ou seja, fazer os condutores pagar mensalmente por funcionalidades que o carro já tem. Sim, o carro já vem com o hardware. Mas o software passa a ser opcional, e claro, pago.
O Autopilot como o conhecíamos está a desaparecer

Durante mais de uma década, o Autopilot foi uma das grandes bandeiras da Tesla. Um sistema de assistência à condução que juntava controlo de velocidade adaptativo com manutenção na faixa de rodagem. Nada de condução autónoma real, mas ainda assim uma ajuda muito competente em autoestrada.
Era isto que muitos compradores esperavam quando compravam um Model 3 ou um Model Y. Pois bem, isso acabou.
Nos Estados Unidos e Canadá, os novos Model 3 e Model Y deixaram de incluir o Autopilot “completo”. O que passa a ser oferecido de série é apenas o controlo de velocidade adaptativo. O carro mantém a distância para o veículo da frente, mas já não ajuda a manter o carro centrado na faixa.
Ou seja, o volante deixa de se mexer sozinho.
Mas aqui é preciso ter em conta que o carro continua a ter todas as câmaras, sensores e capacidade de processamento para o fazer. A Tesla apenas desligou essa parte do software.
Ou seja, algo que já era visto como normal num elétrico moderno passa a estar trancado atrás de uma subscrição.
Full Self-Driving passa a ser subscrição obrigatória
A Tesla também decidiu mexer no modelo de venda do Full Self-Driving.
Até meados de fevereiro, ainda é possível comprar o FSD de forma definitiva por cerca de 8.000 dólares. Depois disso, essa opção desaparece. O FSD passa a existir apenas em regime de subscrição mensal, a rondar os 99 dólares.
Além disso, convém lembrar uma coisa importante: o Full Self-Driving continua a ser um sistema de nível 2. Não é condução autónoma. O condutor tem de continuar atento, com as mãos no volante, pronto a intervir a qualquer momento.
Ou seja, não estamos a falar de um salto tecnológico recente. Estamos a falar de algo que já existia, mas que agora tem regras um bocadinho diferentes.
O mesmo carro? Sim, mas com menos funcionalidades de base.
Aqui está o ponto que está a gerar mais polémica. A Tesla não retirou hardware. Não simplificou sensores. Nem cortou custos na produção. O carro é exatamente o mesmo.
É difícil não olhar para isto como a criação de uma nova fonte de receita só porque sim.
Há mais história?
Esta mudança não acontece por acaso.
A Tesla tem estado sob forte pressão regulatória, especialmente na Califórnia, onde foi acusada de marketing enganador ao longo dos anos, por exagerar as capacidades do Autopilot e do Full Self-Driving.
Há processos judiciais, decisões administrativas e até indemnizações milionárias associadas a acidentes com o Autopilot ativo.
Retirar o nome “Autopilot” do centro da oferta e concentrar tudo num único pacote chamado Full Self-Driving pode ser visto como uma tentativa de limpar a mensagem e reduzir riscos legais.
Mas isso não muda o impacto para o consumidor.
Conclusão
A Tesla continua a fazer aquilo que sabe fazer melhor, que é testar até onde pode ir.
Dito isto, para quem está a comprar um Model 3 ou um Model Y hoje, a realidade é simples e pouco simpática. O carro vem com menos funcionalidades de condução assistida do que vinha antes, e claro, para voltar a ter uma experiência semelhante à do antigo Autopilot, é preciso pagar todos os meses.
Curioso, porque isto já falhou em outras fabricantes como a BMW, porque os consumidores não quiseram aceitar a retórica. E aqui? Vão aceitar?

