Piratear filmes e séries de televisão costumava ser um problema massivo que custava quantias exorbitantes à indústria do entretenimento. Nada parecia conseguir travar esta ascensão até ao momento em que a Netflix entrou em cena com o seu serviço de streaming. A pirataria caiu a pique, mas, surpreendentemente, o fenómeno está a voltar a crescer a um ritmo alarmante. É que o streaming deixou de reduzir a pirataria! Antes de mais, importa sempre lembrar que o download, transmissão ou partilha não autorizada de filmes e séries protegidos por direitos de autor acarreta consequências legais, que podem variar desde multas a processos civis e criminais.
O domínio da pirataria antes da Netflix e do streaming em geral
Além disso, recuando ao início do século, a pirataria estava a explodir. O lançamento do Napster em 1999 permitiu que milhões partilhassem ficheiros MP3 com o mundo. Com a sua queda, serviços como o LimeWire e o Kazaa preencheram o vazio, facilitando também a partilha de vídeos.
Vários fatores impulsionaram esta popularidade:
Custos Elevados: Os pacotes de televisão por cabo e satélite eram extremamente caros, enquanto os torrents não custavam absolutamente nada.
Falta de Acessibilidade: Um filme estreava no cinema e tinhas de esperar meses para que chegasse ao DVD ou à televisão. As séries, dependendo do país, estreavam com semanas ou meses de atraso em relação à emissão original.
Horários Inflexíveis: Estavas à mercê da grelha de programação da TV. A pirataria permitia contornar a espera de uma semana entre episódios, oferecendo a possibilidade de fazer “binge-watching” de uma temporada inteira de uma só vez.
Ou seja, a pirataria não era apenas sobre obter coisas de graça; era sobretudo sobre a enorme conveniência.
Como a Netflix tornou a pirataria bbsoleta
Por outro lado, a indústria dos media tentou travar os downloads com ameaças legais e anúncios anti-pirataria duvidosos, mas com muito pouco sucesso. Fechava-se um site, e outro abria no dia seguinte.
Até que a Netflix mudou as regras do jogo. O serviço começou de forma modesta, mas em 2014 já adicionava centenas de títulos anualmente, aproveitando catálogos que os estúdios subvalorizavam.
De facto, a barreira de fricção para ver conteúdos de forma legal desapareceu. Podes encontrar uma seleção vasta, assistir instantaneamente e pagar um valor mensal muito razoável. Ainda mais importante, eliminou o trabalho de procurar ficheiros na internet, esperar horas por um download e acabar por descobrir que o ficheiro estava corrompido ou era o filme errado. A conveniência venceu onde as ameaças legais falharam.
A fragmentação que estragou tudo
O sucesso tremendo da Netflix não passou despercebido. Adicionalmente, começaram a surgir alternativas, mas o ponto de rutura aconteceu entre 2019 e 2021, com o lançamento em massa de serviços como Disney+, Apple TV+, HBO Max e Paramount+.
Como resultado, a paisagem transformou-se. A Disney retirou os filmes da Marvel e Star Wars da Netflix; a HBO recuperou títulos como o Friends; a Paramount levou o Star Trek. O catálogo global ficou estilhaçado.
Preços incomportáveis e o regresso aos torrents
Consequentemente, o grande problema atual é que já não consegues ver tudo o que queres com apenas uma ou duas subscrições. Se quiseres ter acesso a tudo, precisas de assinar todas as plataformas, o que pode facilmente ultrapassar a absurda marca dos 1000 euros por ano.
Neste sentido, é fácil perceber porque é que a pirataria voltou a crescer. O streaming perdeu as suas duas maiores vantagens: a conveniência e o preço. Ter de saltar entre oito aplicações diferentes não é nada prático, e as mensalidades não param de subir. Ao contrário da música, onde o Spotify ou o Apple Music te dão acesso a quase tudo com uma só assinatura, a fragmentação do vídeo está a arruinar o mercado.
Um futuro preocupante
Em suma, estamos perante um ciclo vicioso e autoperpetuável. À medida que mais pessoas abandonam o streaming e regressam à pirataria, as plataformas tendem a aumentar os preços aos clientes restantes para compensar as perdas e manter os acionistas felizes.
Portanto, se a bolha rebentar, serão os consumidores a sofrer. Foram estas plataformas que nos deram algumas das melhores séries dos últimos anos, e sem elas, o orçamento e a vontade para criar as próximas grandes obras-primas da televisão poderão desaparecer por completo.










