Certamente já te aconteceu acordar às três da manhã, olhar para o relógio e sentir uma ansiedade crescente por não estares a dormir. Contudo, o que hoje chamamos de insónia era, durante milénios, o comportamento padrão da humanidade. Na verdade, dormir de forma contínua é um hábito recente e não uma constante evolutiva. Mas o que é o sono em duas fases?
Sono em duas fases: O ritual do primeiro e do segundo sono
Historicamente, as pessoas não se deitavam para dormir oito horas de uma só vez. Em vez disso, o descanso era dividido em dois turnos principais, vulgarmente conhecidos como o primeiro sono e o segundo sono.
As famílias deitavam-se cedo, pouco depois do pôr do sol, e dormiam durante algumas horas. Posteriormente, acordavam por volta da meia-noite e permaneciam despertas durante uma hora ou mais. Além disso, este intervalo não era tempo desperdiçado; as pessoas usavam-no para rezar, ler, escrever em diários ou até para conviver calmamente com os vizinhos. Muitos casais aproveitavam também este momento de quietude para a intimidade. Só depois deste período de vigília é que regressavam à cama para o segundo sono, que durava até ao amanhecer.
Como é que a tecnologia matou este ritmo?
Infelizmente, este equilíbrio natural começou a desaparecer nos últimos dois séculos devido a mudanças sociais profundas. O principal culpado foi a iluminação artificial. Primeiramente com as lâmpadas a óleo e a gás, e mais tarde com a eletricidade, a noite tornou-se subitamente tempo produtivo.
Consequentemente, as pessoas começaram a deitar-se muito mais tarde, o que comprimiu o tempo disponível para o descanso. Além disso, a luz brilhante antes de dormir suprime a produção de melatonina, empurrando o início do sono para horas mais tardias e alterando o nosso ritmo circadiano. Posteriormente, a Revolução Industrial deu o golpe final, ao impor horários de fábrica rígidos que exigiam um bloco único e ininterrupto de repouso para garantir a produtividade.
A ciência confirma o instinto
Curiosamente, quando os investigadores colocam pessoas em ambientes sem luz artificial ou relógios, muitos participantes acabam por regressar naturalmente ao padrão das duas fases. Um estudo realizado em 2017 numa comunidade agrícola em Madagáscar, sem acesso a eletricidade, mostrou que as pessoas ainda mantêm este ritmo ancestral, acordando frequentemente por volta da meia-noite.
Nesse sentido, o facto de acordares a meio da noite pode ser apenas o teu relógio interno a tentar libertar-se das pressões da vida moderna. O problema é que, ao contrário dos teus antepassados, tu ficas a olhar para o brilho do smartphone, o que piora a situação.
O que deves fazer quando acordas às 3 da manhã?
Se te encontrares desperto a meio da noite, a melhor estratégia é não lutar contra o teu corpo. Portanto, em vez de entrares em pânico com as horas que faltam para o despertador tocar, experimenta estas dicas:
Esconde o relógio: A medição constante do tempo aumenta a ansiedade e faz com que os minutos pareçam horas.
Sai da cama: Se não adormeceres em 20 minutos, vai para outra divisão com luz fraca e faz algo calmo, como ler um livro físico.
Aceita a vigília: Lembra-te que este intervalo é profundamente humano. Aceitar o momento de calma pode ser a forma mais rápida de o teu cérebro relaxar e pedir o segundo sono.
Em suma, a tua insónia pode ser apenas uma herança genética de uma época em que a noite era vivida de forma mais lenta e dividida.








