O mercado dos smartphones está a entrar numa fase estranha, e de facto nunca antes vista. Ou seja, durante anos, a conversa foi sempre a mesma. Mais câmaras, mais IA, mais desempenho, mais armazenamento, mais tudo e mais alguma coisa. Agora? Muda o paradigma.
Começa a ficar claro quem vai sofrer primeiro. Ou seja, não são os topos de gama ultra premium que vão sofrer primeiro. São os smartphones mais baratos, e também aqueles modelos de gama média que sempre viveram de oferecer muito por pouco.
No final do dia, quem fica mal é o consumidor, que se vê obrigado a optar por modelos mais apetrechados, e obviamente mais caros.
Qualcomm e MediaTek podem estar a meter um travão nos chips de 4 nm. Adivinha lá o porquê.
Segundo os relatos mais recentes da cadeia de abastecimento, a Qualcomm e a MediaTek terão começado a cortar nas encomendas de chips móveis de 4 nm. Estamos a falar de milhões de unidades a menos.
Isto vai ter consequências. Ou seja, como o mercado está cada vez mais caro, especialmente nas gamas imediatamente abaixo dos “flagships”, a procura está a abrandar, e como tal, as fabricantes estão a aligeirar as encomendas.
Ou seja, o consumidor, especialmente aquele que compra abaixo dos 300 ou 400 euros, começa simplesmente a recusar o jogo.
Os smartphones baratos são sempre os primeiros a sofrer?
Isto também não devia surpreender ninguém. Quando o custo dos componentes dispara, os equipamentos mais acessíveis sentem logo a pancada. E por uma razão muito simples. Têm margens pequenas e pouca folga para absorver aumentos.
Num topo de gama, a marca ainda consegue subir o preço mais 50 ou 100 euros e vender a ideia de que há ali mais valor, mais estatuto ou mais tecnologia (mesmo que isso seja mentira). Num smartphone barato, isso já não funciona da mesma forma. Porque quem compra nesse segmento está a olhar para cada euro.
É precisamente por isso que o lado mais baixo do mercado começa a parecer cada vez mais desconfortável. Ou fica mais caro, ou fica pior equipado. De facto, às vezes consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
O problema já não é só produzir. É vender!
Durante muito tempo, a indústria andou obcecada com a capacidade de produção. Mais wafers, mais chips, mais unidades, mais escala. Agora começa a aparecer outra dor de cabeça. Produzir já não chega. É preciso que alguém queira comprar.
Pois, se a Qualcomm e a MediaTek estão mesmo a travar a produção de chips de 4 nm, então o mercado já entrou numa fase de maior medo. Porque isso significa que os próprios fornecedores estão a olhar para a frente e a ver menos encomendas, menos confiança e menos vontade de arriscar.
No fundo, ninguém quer ficar agarrado a silício caro para meter dentro de smartphones que depois ficam parados nas prateleiras.
O Android barato pode estar a entrar numa fase complicada
Isto é talvez a parte mais interessante de todas. O ecossistema Android sempre viveu muito da variedade. Havia modelos para todos os gostos, para todas as carteiras e para quase todas as prioridades. Mas essa lógica pode começar a tremer se os custos continuarem a subir.
Porque a certa altura deixa de ser possível meter 12 GB de RAM, 256 GB de armazenamento, ecrã rápido, bateria grande e um chip competente num telemóvel barato sem rebentar completamente com a conta.
E ninguém está para pagar 600€ por um gama média, quando já existem propostas mais interessantes no mercado, especialmente no lado dos recondicionados.
Conclusão
Se a Qualcomm e a MediaTek estão mesmo a cortar milhões de chips móveis de 4 nm, então isso é mais do que uma simples nota de supply chain. É um sinal claro de que o mercado está a sentir a pressão, e é apenas o início.
Ou seja, o problema já não é só desenvolver e produzir tecnologia. É vendê-la a preços que as pessoas consigam aceitar. A ideia de que é possível aumentar preços e tudo fica na mesma… É algo que não existe.









