Quem anda pelas ruas de Lisboa nos últimos tempos não precisa que ninguém lhe faça um desenho. Há pessoas a vasculhar caixotes de lixo de ponta a ponta à procura de garrafas e latas para ir buscar uns cêntimos às máquinas de retorno.
De facto, já me aconteceu querer entrar num McDonald’s, e não conseguir porque estavam pessoas a vasculhar o lixo. Podes achar que é brincadeira de rede social, mas não é. Se fores a uma cidade grande, vais ver pessoas a vasculhar o lixo para juntar aqueles 10 cêntimos mágicos.
O espetáculo é degradante, expõe as feridas abertas da nossa sociedade e incomoda muita gente que prefere viver na bolha cor-de-rosa da capital. De facto, Carlos Moedas veio a público exigir o cancelamento imediato do sistema Volta, falando num drama social sem precedentes.
Sistema Volta não vai a lado nenhum. Moedas tentou!

A resposta do Governo não tardou, veio direta de Estrasburgo pela voz da Ministra do Ambiente, e foi um balde de água fria com a crueza que faltava a este debate. Apesar do retrocesso em França, o sistema não vai acabar porque é obrigatório por lei europeia. Além disso, culpar uma máquina de reciclagem pela pobreza estrutural do país é pura demagogia!
Bruxelas manda e Portugal já pagou 600 milhões em multas
Maria da Graça Carvalho colocou os pontos nos is com dois argumentos que arrumam a discussão da revogação para um canto. Primeiro, Portugal foi apenas o 19.º país da União Europeia a implementar este modelo. Segundo, e mais doloroso para a carteira de todos nós: o Estado português já queimou cerca de 600 milhões de euros em multas comunitárias nos últimos dois anos só por falhar redondamente as metas de reciclagem de plástico.
Para além disso, o Volta está amarrado ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Abandonar o projeto agora significaria rasgar metas assumidas e perder milhões de euros em fundos europeus que o país não se pode dar ao luxo de deitar fora:
- Os números: Desde o arranque a 10 de abril, foram recolhidas mais de 304 mil embalagens. A meta inicial para esta fase era de 40%, mas o sistema já bateu nos 44% de retorno das embalagens abrangidas.
- A comparação europeia: Outros países da Europa enfrentaram exatamente o mesmo choque inicial nas grandes cidades e adaptaram a logística sem deitar o sistema ao lixo.
A solução para os caixotes de lixo: Copiar o que funciona lá fora!
A ministra não ignorou a degradação urbana que se vive na capital, mas fez questão de separar o trigo do joio. As pessoas não estão a revirar caixotes porque o sistema Volta existe. Estão a revirar caixotes porque são pobres, porque não têm teto e porque a crise social e da habitação em Lisboa atingiu proporções descontroladas.
Em vez de cancelar uma medida que recupera resíduos e trava multas milionárias, o Governo está a preparar uma resposta pragmática já vista em cidades como Berlim. Instalar suportes ou recipientes próprios para garrafas do lado de fora dos contentores de lixo normais. Desta forma, quem não quer o trabalho de ir trocar a garrafa deixa-a colocada no suporte exterior, permitindo que quem precisa desses cêntimos a recolha de forma digna e rápida, sem ter de mergulhar os braços no lixo nem espalhar detritos pela calçada.
Menos teatro político, mais soluções práticas? Parece ser esse o caminho.








