Já falei muito do sistema Volta, a grande novidade da reciclagem e ética em Portugal, porque apesar de a intenção ser boa, a realidade é que o sistema está a falhar de forma quase explosiva. Isto é curioso, porque acaba por ser quase sempre normal em Portugal. Infelizmente, nós nunca aprendemos com os sistemas lá de fora, por sua vez implementados há uma série de anos, que claro está também tiveram problemas, mas foram capazes de os resolver ao longo do tempo.
Por cá… É sempre imperativo começar do zero. Pois bem, agora que o sistema tem mais ou menos 1 mês em Portugal, é fácil tirar conclusões. Ou seja, a ideia de criar um sistema de depósito e reembolso para embalagens de bebidas em Portugal é excelente e funciona noutros países há anos. De facto, até poderia potenciar a reciclagem, porque várias pessoas iriam ativamente recolher garrafas para ir buscar o dinheiro do depósito.
O problema é… não é fácil depositar garrafas, e muito menos reaver o dinheiro. No final do dia, a aplicação prática da etiqueta “Volta” no nosso país está a revelar-se um autêntico teste à paciência dos consumidores.
As pessoas já nem querem saber do dinheiro do depósito. É apenas uma (nova) despesa extra…
Portanto, basta olhar para o Facebook e Reddit para perceber que a coisa não está a correr nada bem. Tudo porque existe uma falha gritante na experiência do utilizador deste novo ecossistema. Bem, uma não… São várias!
Logo a começar, os supermercados têm um controlo demasiado alto sobre a forma como o dinheiro é devolvido, e na realidade o próprio sistema de devolução tem falhas tremendas. Por exemplo, tens de entregar a garrafa sem qualquer dano, mas quando ela passa na máquina, é esmagada lá dentro. Não é giro?
Depois, dependendo do supermercado, podes nem conseguir descontar o dinheiro das garrafas nas compras desse mesmo dia. Segundo as opiniões populares, o Mercadona é o único supermercado que parece querer simplificar a coisa, ao depositar o dinheiro na tua conta bancária.
Mas existem outros cenários que fazem muito pouco sentido. Imagina que vais almoçar a um qualquer lado, pedes quatro bebidas em lata ou garrafa, e tens de pagar 10 cêntimos por cada pedido. Sendo um depósito, seria de esperar que o estabelecimento fizesse a recolha, não existindo cobrança de dinheiro. Mas não! No final tens lá no talão os 10 cêntimos de cada bebida.
Queres o dinheiro de volta? Leva as garrafas e vai a uma máquina. Vais almoçar ou jantar fora e, no fim, ainda tens de levar o lixo contigo para conseguir reaver o teu dinheiro.
O que falha redondamente no sistema atual?
- Logística ridícula: Obrigar o cliente a ir a supermercados, o que derrota completamente a ideia do pequeno comércio, e claro, carregar lixo pelos pisos do shopping para reaver o seu próprio dinheiro.
- Falta de manutenção: Máquinas constantemente avariadas ou cheias, interrompendo o ciclo de devolução. Pessoas que antes reciclavam estão agora a desistir de bons velhos hábitos, porque não estão para se chatear.
- Monopólio do reembolso: Vouchers limitados a uma cadeia de lojas específica em vez de devolução em numerário ou digital. Muito controlo no lado das lojas.
- Solidariedade… onde?: Botões de doação anunciados mas que não estão ativos na maioria dos equipamentos.
Conclusão
Eu sou totalmente a favor do sistema, tem tudo para correr bem no futuro. Tem é de corrigir rapidamente todos os problemas da implementação atual.
Aqui vale a pena salientar que o Volta não é uma ideia portuguesa que chegou agora ao mercado, é um sistema que já existe em outras regiões com bastante sucesso. Mas… a estupidez burocrática consegue queimar as melhores ideias.
Infelizmente, quando um sistema ecológico cria tanta fricção, o efeito acaba por ser o oposto. As pessoas preferem perder o dinheiro do depósito, ao deitar as latas no lixo normal, em vez de passar por tantos obstáculos que fazem pouco sentido.
Há quem fique a ganhar com isto… mas com toda a certeza que não és tu.
Em suma, se a tecnologia serve para simplificar, em 2026 devia ser obrigatório que o reembolso do sistema “Volta” pudesse ser feito diretamente para o telemóvel por NFC ou até por MBWay, um sistema por sua vez 100% português.





