Foi manchete lá fora e chegou cá depressa: o Governo britânico aconselhou os cidadãos a terem em casa reservas de água e alimentos para aguentarem vários dias sem abastecimento, por causa de um inverno que se prevê especialmente violento. A pergunta apareceu logo a seguir, e é legítima: em Portugal, também devíamos começar a fazer isto?
A resposta curta é sim, mas não pela razão que anda nos alarmes, e sem qualquer motivo para pânico. Vamos por partes, com calma e com factos.
O que disseram os britânicos, ao certo
O aviso partiu da secretária de Estado do Ambiente do Reino Unido, que aconselhou os cidadãos a manter reservas suficientes para subsistir vários dias sem água ou eletricidade. A justificação foi um inverno que se anuncia rigoroso, com tempestades mais frequentes, associado a um fenómeno climático a que a Organização Meteorológica Mundial atribui probabilidade próxima dos 100% de persistir nos próximos meses.

Aqui é preciso um travão de honestidade. Esse fenómeno, o El Niño, é um aquecimento anormal das águas do Pacífico que altera padrões de chuva e temperatura pelo mundo. Os efeitos mais severos previstos são na Ásia, com inundações, e no próprio Reino Unido, com tempestades. O impacto direto em Portugal é incerto e indireto, não há aqui nenhuma catástrofe anunciada para o nosso território. Quem te disser que “vem aí o fim do mundo a Portugal por causa do El Niño” está a exagerar.
Então porque é que faz sentido em Portugal?
Porque a razão certa para ter reservas em casa não é o El Niño. É algo muito mais concreto, e que já vivemos.
Em abril de 2025, a Península Ibérica sofreu um apagão geral que deixou milhões de pessoas sem eletricidade durante horas, sem multibanco, sem bombas de combustível a funcionar, sem forma de pagar em muitos sítios. Todos os anos temos incêndios que isolam localidades e tempestades que derrubam postes e cortam estradas. Nenhuma destas coisas precisa do El Niño para acontecer.
E não é uma ideia de survivalistas. Em 2025, a própria Comissão Europeia recomendou que cada agregado familiar tivesse um kit de emergência para, pelo menos, 72 horas. Em Portugal, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) subscreve essa recomendação. A lógica é simples: nas primeiras horas de uma crise, os serviços de socorro podem não chegar a todos de imediato, e cada família deve conseguir aguentar-se sozinha três dias.
Ter este kit aproxima-se cada vez mais de ter um extintor ou uma caixa de primeiros socorros em casa. Não é excesso de zelo. É bom senso.

A lista oficial: o que ter em casa para 72 horas
Esta é a parte prática, e baseia-se nas recomendações da ANEPC, da Cruz Vermelha Portuguesa e da União Europeia. Não precisas de gastar uma fortuna nem de encher a garagem, precisas do essencial, organizado e acessível.
Água
Pelo menos 3 litros por pessoa por dia, o que dá cerca de 9 litros por pessoa para os três dias. Uma família de quatro precisa de perto de 36 litros. Distribui por garrafas de vários tamanhos, para ser mais fácil transportar se for preciso.
Alimentos não perecíveis
Comida que dure e que não precise de frigorífico nem de muita preparação: enlatados (atum, feijão, sopas), bolachas, barras energéticas, frutos secos, arroz, massa. Se tiveres bebés, inclui leite em pó e boiões próprios.
Iluminação e comunicação
Lanterna, pilhas extra e uma powerbank carregada. Muito importante: um rádio a pilhas, porque num apagão prolongado pode ser a única forma de receber informação oficial.
Saúde e higiene
Kit de primeiros socorros, a tua medicação habitual para vários dias, produtos de higiene pessoal, papel higiénico e sacos do lixo.
Documentos e dinheiro
Cópias dos documentos importantes numa bolsa impermeável e algum dinheiro em numerário — a lição direta do apagão de 2025, em que os cartões deixaram de funcionar.
Outros úteis
Muda de roupa, mantas, calçado resistente, um apito, um canivete e um mapa da tua zona.
Como fazer isto sem cair no exagero
Três princípios para não transformares preparação sensata em paranoia:
- Guarda tudo num só sítio, acessível e conhecido por todos em casa. Uma mochila ou caixa com tampa chega. Uma versão mais pequena no carro é um extra útil.
- Vai rodando os alimentos e a água. Consome e repõe, para não teres latas fora de prazo daqui a dois anos. Não é um bunker, é uma despensa organizada.
- Não acumules por medo. O objetivo são 72 horas de autonomia, não meses de reservas. Comprar em pânico só cria falta nas prateleiras e desperdício em casa.
No fundo, a resposta à pergunta do título é esta: não precisas de entrar em pânico com avisos vindos de fora, mas faz todo o sentido teres em casa o que as autoridades portuguesas já recomendam há mais de um ano. Não por causa do El Niño, mas porque um apagão, um incêndio ou uma tempestade não avisam antes de chegar.
Perguntas frequentes
O El Niño vai mesmo afetar Portugal este inverno?
O impacto direto em Portugal é incerto. O El Niño altera padrões climáticos globais, mas os efeitos mais severos previstos são noutras regiões. Prudência sim, alarme não.
Quanto custa montar um kit destes?
Menos do que se pensa, sobretudo se aproveitares coisas que já tens em casa. A maioria dos itens — água, enlatados, lanterna, rádio, encontra-se em qualquer supermercado e não tem de ser comprado tudo de uma vez.
Onde está a recomendação oficial?
Nas orientações da ANEPC e na Estratégia de Preparação da União Europeia, ambas apontando para 72 horas de autonomia. Vale a pena consultar o site da Proteção Civil.
Faz sentido ter um kit no carro?
Sim, uma versão reduzida, água, lanterna, manta, primeiros socorros, é útil, sobretudo para quem faz estrada com frequência ou vive em zonas isoladas.






