Durante anos, a ideia de proibir redes sociais a menores soava a conversa de café: polémica, difícil de aplicar e fácil de contornar. Pois bem… a coisa está a ganhar corpo, e rápido. Depois de a Austrália ter passado do debate à lei (e já com resultados a dar que falar), o Reino Unido deu agora um passo enorme: a Câmara dos Lordes aprovou uma emenda para avançar com um ban às redes sociais para menores de 16 anos. E é aqui que entra a pergunta que interessa mesmo ao leitor português: O fim das redes sociais para menores vai chegar a Portugal?
O que aconteceu no Reino Unido (e por que isto é sério)
A votação foi tudo menos simbólica: 261 votos a favor e 150 contra. A emenda foi adicionada ao Children’s Wellbeing and Schools Bill e coloca pressão direta sobre o Governo de Keir Starmer que, até aqui, tem preferido uma abordagem mais faseada.

Agora, atenção ao detalhe que evita confusões: isto ainda não está fechado como lei final. O texto segue para a Câmara dos Comuns, onde pode ser aceite, alterado ou revertido. Mesmo assim, quando a câmara alta dá um sinal destes (e com esta diferença), o debate muda de patamar: de ideia passa a probabilidade real.
O Governo britânico já está a preparar terreno (e não é só “ban”)
O Reino Unido não está apenas a falar em cortar acesso. No dia 19 de janeiro de 2026, o Governo lançou uma consulta pública sobre o tema, com medidas que vão além do “sim/não” ao ban: fala-se em reduzir o acesso de empresas a dados de menores e em mexer em mecânicas viciantes tipo scroll infinito.
Ou seja: mesmo que o ban puro seja ajustado, a direção é clara, restrição e controle mais agressivos.
Austrália: aqui já não é teoria é prática (desde 10 de dezembro de 2025)
A razão pela qual tanta gente está a olhar para isto com respeito (e medo) chama-se Austrália.
Segundo o enquadramento oficial do governo australiano, desde 10 de dezembro de 2025 as plataformas abrangidas têm de tomar passos razoáveis para impedir que menores de 16 tenham conta. E o mais importante: a responsabilidade cai nas plataformas, não nos pais. As multas podem ir até 49,5 milhões de dólares australianos.
O resultado? Já há notícias de milhões de contas removidas/fechadas no contexto da aplicação destas regras.
A União Europeia também está a empurrar (e o número “16” começa a colar)

O Reino Unido está fora da UE, mas o tema não é britânico. A Europa já está a levantar a mão.
Em 26 de novembro de 2025, o Parlamento Europeu publicou uma posição pública a defender uma idade mínima de 16 para acesso a redes sociais e medidas para reduzir práticas consideradas mais nocivas e aditivas.
Isto, por si só, não cria uma lei automática em Portugal mas faz duas coisas:
- normaliza a ideia a nível europeu (deixa de ser “radical”);
- abre espaço para pressão regulatória em cadeia (principalmente se as plataformas forem obrigadas a mudar regras no espaço europeu).
Ok, mas… Portugal vai mesmo copiar isto?
O cenário mais provável é Portugal não inventar”sozinho um ban amanhã, mas sim ser puxado por duas forças:
1) Efeito dominó político
Quando um país grande avança (Austrália), outro segue (Reino Unido), e a UE começa a pressionar… a conversa muda: passa a existir precedente.
2) Pressão regulatória e técnica
Se o Reino Unido fechar o processo e a UE endurecer regras, as plataformas podem acabar por aplicar mecanismos de verificação e limites por defeito em mais mercados porque é mais barato gerir um modelo global do que cinquenta versões diferentes.
Dito isto, há um travão real: aplicar um ban sem criar um pesadelo de privacidade. A verificação de idade é sempre a parte explosiva, porque ninguém quer que a internet se transforme num balcão permanente de identificação e a discussão tende a cair no meio entre segurança e vigilância.
O detalhe que quase ninguém diz: isto não é só proibir
O que está a mudar em 2026 é o foco do debate.
Durante anos, a lógica foi: as famílias que resolvam. Agora começa a ser:
as plataformas é que têm de deixar de funcionar como máquinas de dependência para menores.
E é aqui que entram as medidas que podem chegar a Portugal mesmo que não exista um ban total:
- limitações a designs aditivos (como scroll infinito);
- travões em recomendações e autoplay para menores;
- bloqueios por defeito, com controlos parentais mais fortes;
- restrições reais ao uso e recolha de dados de menores.
Portugal pode não ser o primeiro a carregar no botão, mas quando as regras começam a endurecer em mercados grandes, os efeitos chegam cá seja por legislação futura, seja porque as próprias plataformas ajustam o produto para sobreviver.

