Há ideias que parecem fazer sentido à primeira vista. Depois pensas dois minutos e percebes que o problema é bem mais complicado do que parece. É exatamente isso que está a acontecer com a proposta que quer acabar com a condução automóvel a partir dos 75 anos em Portugal.
O argumento é aparentemente simples. Há mais idade, o que por sua vez significa mais limitações físicas e cognitivas, há mais risco. Logo, corta-se o problema pela raiz e retira-se a carta a toda a gente a partir dessa idade.
Parece direto e eficaz e até parece defensável num título de Facebook. O problema é que o mundo real não funciona assim.
Querem proibir a condução a partir dos 75 anos. Faz sentido?
A proposta está em cima da mesa com uma lógica de segurança pública (link). Quem a defende diz que há idosos em contra-mão, acidentes evitáveis e sinais evidentes de incapacidade que continuam a passar despercebidos. E, sejamos honestos, há pessoas com idade avançada que simplesmente já não deviam estar ao volante. Isso é óbvio. O tempo de reação não é o mesmo, a visão muda, a mobilidade piora e a capacidade de decisão pode ficar afetada. Ninguém discute isso.
Mas também há aqui uma pergunta muito simples que não pode ser ignorada. Faz sentido tratar toda a gente com mais de 75 anos como se fosse automaticamente incapaz de conduzir?
Na minha opinião não.
Idade não é sinónimo automático de incapacidade
Conheço pessoas com 75 anos com um físico invejável. É daquelas coisas em que cada caso é um caso.
Sim, a idade pesa, claro que pesa. Mas não pesa da mesma forma em toda a gente. Há idosos com reflexos, lucidez e rotinas de condução muito mais seguras do que muitos condutores de 30 ou 40 anos que andam colados ao telemóvel, cansados, distraídos ou simplesmente a conduzir como idiotas.
Talvez o caminho certo seja outro
Em vez de proibição automática, talvez a discussão devesse estar focada noutra coisa. Avaliações médicas mais sérias. Testes mais frequentes. Critérios mais exigentes. Menos burocracia de fachada (aqueles atestados médicos que toda a gente arranja) e mais avaliação real da capacidade para continuar a conduzir.
O problema talvez não esteja na idade em si. Está na forma suave como muitas vezes se avalia quem continua apto e quem já não está em condições.
Conclusão
A ideia de proibir a condução a partir dos 75 anos nasce de uma preocupação legítima. Ninguém quer estradas mais perigosas, nem quer fechar os olhos a sinais evidentes de incapacidade. Mas uma preocupação legítima não transforma automaticamente uma má solução numa boa solução.
Portugal precisa de mais exigência na avaliação de quem conduz em idade avançada. Isso parece-me óbvio. O que já não me parece tão óbvio é que a resposta certa seja uma proibição total e automática baseada apenas na idade.








