Há um “facto” que circula por aí: o de que o papel higiénico, antigamente, só se vendia com receita médica e era na prática um medicamento. É mais ou menos mentira mas, como quase todos os bons mitos, nasceu de algo verdadeiro. E a verdade é ainda mais curiosa do que a lenda: o primeiro papel higiénico comercial da história não era vendido como produto de higiene, mas sim como um remédio. Vamos a esta história.
O papel higiénico já foi um medicamento
Recuemos a 1857, em Nova Iorque. Foi aí que um empreendedor chamado Joseph Gayetty lançou o que é considerado o primeiro papel higiénico comercial do mundo. Só que ele não o vendeu como um simples papel para limpar, vendeu-o como um produto medicinal.

O nome oficial era “Papel Medicinal para o Water-Closet” (a sanita, na altura). As folhas embebiam-se em aloé e comercializadas com a promessa de prevenir hemorroidas. Ou seja, era publicitado como um artigo de saúde, quase uma pomada em forma de papel. Vinha em pacotes de 500 folhas soltas e custava 50 cêntimos.
É precisamente daqui que vem o mito da “receita médica”: como se vendia como produto medicinal, alguém, algalgures, distorceu isso ao longo dos anos para “só se comprava com receita”. Nunca foi verdade, vendia-se livremente em lojas, mas percebe-se de onde saiu a confusão.
O nome do inventor em cada folha
E agora o pormenor mais delicioso. Gayetty tinha tanto orgulho na sua invenção que mandou imprimir o próprio nome em cada folha. Cada folha trazia a marca de água “J. C. Gayetty, N. Y.”.
Pensa nisso por um segundo: a pessoa comprava o produto e limpava-se, literalmente, com o nome do fabricante. Do ponto de vista de marketing, talvez não tenha sido a decisão mais brilhante da história, mas garantiu que ninguém esquecesse quem o tinha inventado.
Os médicos gozaram com ele
Nem tudo foram rosas. Quando Gayetty lançou o seu “papel medicinal” a prometer curar hemorroidas, a comunidade médica da época não levou a coisa a sério. Vários médicos atacaram-no nas revistas científicas, tratando-o praticamente como um charlatão que vendia banha da cobra em forma de papel.

Apesar do ceticismo, o produto de Gayetty aguentou-se no mercado durante décadas. Chegou a estar à venda até aos anos 1920. Mas nunca foi um grande sucesso comercial, em parte porque os americanos da época achavam ridículo pagar por algo que podiam resolver de graça.
Antes disto, limpava-se com… o catálogo
Porque a alternativa gratuita era mesmo popular. Antes (e durante muito tempo depois) do papel de Gayetty, as pessoas usavam o que tinham à mão: páginas de jornais, revistas e, sobretudo, os catálogos de vendas por correspondência, como o famoso catálogo da Sears, que tinha lugar cativo na casa de banho até passar a ser impresso em papel brilhante que, esse sim, não servia para nada.
Foi só mais tarde, com a chegada do papel higiénico em rolo e perfurado, que o produto se tornou aquilo que conhecemos hoje: um bem tão banal que nem pensamos nele. Mas houve um tempo em que era um “medicamento” de luxo, com o nome do dono estampado em cada folha.







