Muito antes da Starlink de Elon Musk prometer internet global via satélite, já existia algo muito mais discreto e muito mais importante. Chamava-se TAT-8. Estamos a falar do primeiro cabo transatlântico de fibra ótica do mundo.
Agora, quase quatro décadas depois, está a ser puxado do fundo do Atlântico. Porquê?
Antes dos satélites, foi o vidro que ligou continentes
O TAT-8 foi o oitavo sistema telefónico transatlântico, mas o primeiro a substituir cobre por fibra ótica entre os Estados Unidos, o Reino Unido e França. Usava fibra single-mode a 1.3 micrómetros e repetidores optoelectrónicos capazes de operar a cerca de 280 Mbit por segundo. Pode parecer pouco hoje, mas na altura era revolucionário.
Os repetidores estavam espaçados a cada poucas dezenas de quilómetros, selados em estruturas de aço preparadas para profundidades até 8.000 metros. No total, quase 6.000 quilómetros de cabo no fundo do mar.
A arquitetura criada pelo TAT-8 tornou-se o modelo para praticamente todos os sistemas submarinos que vieram depois.
E os tubarões?
Pode parecer coisa de filme, mas durante anos, os tubarões foram acusados de morder cabos submarinos. A história começou quando dentes de tubarão foram encontrados cravados num cabo experimental. A teoria era que os campos eletromagnéticos poderiam atrair os animais.
Testes posteriores, tanto em aquários como em mar aberto, não encontraram provas consistentes de que os campos elétricos fossem o motivo.
A explicação mais provável é bem mais simples. Um objeto suspenso na água chama a atenção de animais curiosos.
Ainda assim, a indústria passou a incluir uma camada adicional de aço entre o isolamento e o núcleo de fibra, não apenas por causa dos tubarões, mas também para aumentar a resistência a abrasões e danos mecânicos.
Como se retira um cabo do fundo do oceano?
A operação é feita por navios especializados, como o Maasvliet, da Subsea Environmental Services.
O processo combina engenharia moderna com técnicas de navegação que remontam ao século XIX. Cada segmento do cabo tem registos detalhados com coordenadas exatas, localização de repetidores, emendas e reparações feitas ao longo dos anos.
Para recuperar o TAT-8, a equipa lança um “grapnel” plano para o fundo do mar e reboca-o lentamente ao longo do trajeto mapeado. Quando a tensão do cabo muda, pode significar que o gancho encontrou o alvo.
Só depois de içado para bordo se confirma se o segmento correto foi recuperado.
O que sai lá de baixo?
Quando os repetidores emergem à superfície pela primeira vez em décadas, revelam o nível de engenharia do final dos anos 80.
Cada unidade mede cerca de dois metros e contém eletrónica projetada para funcionar durante anos sob pressão extrema. Alimentação feita através de corrente contínua transmitida por condutores de cobre integrados no próprio cabo.
Agora, todo esse material entra numa nova fase de vida.
Grande parte vai para instalações de reciclagem especializadas, como as da Mertech Marine, que desmontam o sistema e separam aço, cobre, polímeros e outros metais.
O cobre recuperado é particularmente valioso. É de alta qualidade, já processado e disponível em comprimentos longos e contínuos.
Fibra continua a mandar
Apesar do crescimento de redes de satélite em órbita baixa, a realidade é, por enquanto, outra.
Os cabos submarinos continuam a dominar em capacidade, latência e custo por bit transmitido. Satélites complementam, oferecem redundância e cobrem zonas remotas, mas não substituem a infraestrutura física enterrada no fundo do oceano.
A tecnologia evoluiu com multiplexagem por divisão de comprimento de onda e transmissão ótica coerente, mas o princípio base mantém-se o mesmo do TAT-8.
Em suma, fibra single-mode. Repetidores submersos e mapeamento físico detalhado.
Ainda assim, a realidade é que a infraestrutura, tal como a tecnologia, também tem ciclos de vida.








