A febre da eletrificação continua a ser o prato forte das marcas automóveis, com os governos e as fabricantes a tentarem enfiar-nos os elétricos pela goela abaixo, por vezes só porque sim. Sim, aqui é preciso ter em conta que a eletrificação é importante e pode mesmo ser o futuro do mundo automóvel. Aliás, felizmente, o mercado também está cada vez mais populado com propostas promissoras, e isso é sempre uma boa notícia.
Mas a promessa é sempre a mesma, e parece-me insuficiente.

Estou a falar de poupança no combustível, silêncio a bordo, zero emissões e mais segurança atrás do volante. No papel, tudo isto parece um conto de fadas, mas a verdade nua e crua surge quando olhamos para a realidade do parque automóvel em Portugal e para as reais necessidades das famílias.
Afinal de contas, os carros elétricos de gama alta continuam caros, sendo exatamente por isso que várias fabricantes começam a apostar em propostas mais baratas, apesar de limitadas em alguns pontos. Estamos a falar de automóveis como o BYD Dolphin Surf, o FIAT Grande Panda, o velho Dacia Spring (que vai ser renovado) e, claro, o novíssimo Renault Twingo.
Tudo isto com a retórica de que um português só precisa de fazer 20 ou 30 quilómetros por dia e, por isso, pode e deve ter um carro limitado com uma autonomia para a qual muitos ainda torcem o nariz… Mas, não me faz sentido. Sim, num mundo perfeito todos tínhamos um carro secundário bom, barato e elétrico para poupar dinheiro e ajudar o ambiente. O problema é que a esmagadora maioria dos portugueses não pode comprar um segundo carro só porque sim.
Não é por acaso que a esmagadora maioria dos carros novos vendidos em Portugal vão para empresas. Os portugueses compram o que conseguem e, por isso mesmo, compram quase sempre usado nacional ou usado importado.
Entre comprar um elétrico limitado e um usado apetrechado, a resposta é quase sempre o usado.
Citadino moderno? Sempre trancado nas muralhas da cidade
Se olharmos para as opções mais baratas do mercado (carros novos), os suspeitos do costume são o Dacia Spring ou o Renault Twingo E-Tech, com preços que andam a oscilar ali na fasquia dos 16.000€ aos 20.000€. São automóveis que prometem autonomias à volta dos 250 quilómetros. Mas claro, se te fores aventurar para fora da cidade e tiveres a ousadia de entrar numa autoestrada. Este é um número que vai baixar, e bem.
Como já deves ter percebido, isto é algo que me faz alguma confusão. Parece que estamos a querer mudar a história.
Os citadinos sempre existiram e, sim, sempre foram focados na agilidade dentro da cidade. Mas podiam ir para onde tu quisesses. Eram mais limitados, claro. Mas se quisesses fazer Lisboa-Porto ou Porto-Faro, ele fazia. Tinhas de parar mais vezes para meter combustível, mas era ok. Era aceitável. Era o carro que conseguias ter e, como tal, tinha de ser pau para toda a obra.
Pois bem, hoje em dia, um citadino elétrico não consegue fazer isso. Ou melhor, consegue, mas com baterias pequenas e carregamentos lentos, uma viagem destas dispara para o triplo do tempo.
Quem é que não se lembra de conduzir um velhinho Fiat Punto, um Renault Clio ou um Peugeot 206 com motor 1.1 ou 1.2 a gasolina? Eram carros puramente citadinos, sim, mas que te levavam a qualquer lado. Fazias uma viagem de Lisboa até ao Algarve com três ou quatro amigos lá dentro e não era de todo o fim do mundo.
Havia uma versatilidade real que o progresso elétrico simplesmente assassinou na gama de entrada.
Carros de 20 mil euros com limitações reais. O português vai dizer que não?
É que depois temos uma outra questão. Um carro elétrico bom e barato para um português sem grandes posses é giro. Mas um português com poucas posses não tem garagem. Como é que carrega o carro? Vai carregá-lo nos postos públicos? Que são muito mais caros, são longe de casa e podem até nem estar disponíveis ou funcionais.
É uma dor de cabeça.
Pedir a uma família de classe média que gaste perto de 20 mil euros num “segundo carro” elétrico e limitado, quando esse mesmo valor compra um bom carro principal seminovo a combustão no mercado de usados, é viver completamente fora da realidade. Aliás, com 20 mil euros já podes começar a olhar para elétricos usados, como é o caso do Model 3 da Tesla.
Bem… Vou muito provavelmente ser criticado por esta forma de pensar, mas a ideia é criar uma discussão. Qual é a tua opinião acerca deste assunto?







