Se já viste imagens dos testes de pré-época de Fórmula 1, que estão agora a acontecer no Bahrain, provavelmente reparaste numa coisa curiosa, além de grelhas cheias de sensores, também é possível ver partes do carro cobertas por uma tinta verde fluorescente, quase como se alguém tivesse entornado alguma coisa em cima do chassis.
Chama-se flo-vis, e é essencial para perceber a aerodinâmica. Especialmente agora que as regras do jogo na F1 mudaram.
Porque é que os carros de F1 aparecem com tinta verde em pista?
Portanto, caso não saibas, as regras da Fórmula 1 mudaram em 2026. Os motores são diferentes, e o chassis também mudou como há muito não mudava. Ou seja, decidiu-se deixar de dar tanta importância às leis aerodinâmicas que entraram em vigor em 2022, muito mais focadas na força aerodinâmica que o chão de cada carro era capaz de gerar.
Como seria de esperar, isto resulta em carros completamente diferentes, agora um pouco mais leves e compactos, onde claro está… Reina a dúvida.
É curioso, porque mesmo com tanta tecnologia no desporto, usar simulações é uma coisa… O mundo real é outra completamente diferente.
O que é o flo-vis?
Flo-vis vem de “flow visualization”, ou seja, visualização do fluxo de ar.
É uma tinta à base de parafina que fica húmida durante algum tempo. As equipas aplicam essa tinta em zonas específicas do carro, como o fundo plano, difusor, asas ou laterais. Depois o carro dá uma ou duas voltas à pista.
Enquanto o carro anda, o ar empurra essa tinta e cria padrões, riscos e “rabiscos” que mostram exatamente como o fluxo de ar está a comportar-se naquela superfície. Quando regressa às boxes, a tinta já está seca e a equipa fotografa tudo ao detalhe.
Essas imagens seguem depois para os engenheiros, que analisam o comportamento aerodinâmico real do carro em pista. Isto para perceber se todo o trabalho está correto, ou se é preciso fazer alterações significativas na aerodinâmica.
Porque é que isto é tão importante?
Provavelmente achas que o motor é mais importante, mas, na Fórmula 1, a aerodinâmica é tudo.
Sim, o motor conta. Sim, a estratégia conta. Mas o fluxo de ar é o que define carga aerodinâmica, equilíbrio, estabilidade em curva e eficiência em reta.
Assim, o flo-vis permite perceber:
- Se o ar está a seguir o caminho previsto no túnel de vento e nas simulações CFD
- Se há turbulência inesperada
- Se alguma peça está a “estragar” o fluxo
- Se o novo fundo plano ou difusor está realmente a funcionar
É uma forma simples, mas extremamente eficaz, de confirmar se a teoria bate certo com a prática.
Porque não usam sempre?
Porque há um pequeno problema. Todos podem ver o resultado final.
Quando uma equipa usa flo-vis, basicamente está a mostrar ao mundo onde está a testar e o que quer analisar. Fotógrafos captam imagens, analistas no YouTube fazem vídeos, e as equipas rivais tiram notas.
Por isso, o flo-vis é mais comum:
- Nos testes de pré-época
- Após grandes mudanças regulamentares
- Ocasionalmente em treinos livres
E aquelas “grelhas” gigantes nos carros?
Há outro método ainda mais comum nos testes: os chamados aero rakes.
São estruturas cheias de pequenos sensores de pressão que medem com precisão o comportamento do ar à volta do carro. Enquanto o flo-vis mostra o caminho do ar na superfície, os aero rakes permitem medir intensidade e direção do fluxo no espaço à volta do carro.
No fundo, um mostra o desenho. O outro mede os números.
Em suma, se achavas que a F1 eram só carros potentes a andar à volta numa pista, bem… Há muita ciência e tecnologia à mistura. Ser rápido não é nada fácil.










