Deves saber que a chegada do USB-C aos iPhones (obrigada, União Europeia!) foi uma das melhores coisas que aconteceu ao mercado nos últimos anos. Hoje em dia, com o mesmo cabo, consegues carregar o smartphone, o portátil, o tablet e até a Nintendo Switch 2. É a comodidade em todo o seu esplendor. Mas há um ecossistema que parece passar completamente ao lado desta harmonização e que continua a pregar-nos partidas todas as semanas… O dos relógios inteligentes.
Perdes o carregador proprietário do teu relógio, e… Pronto… É uma dor de cabeça.
Aliás, repara bem no ridículo da situação! Se tiveres um Apple Watch, não o consegues carregar com o carregador de um Samsung Galaxy Watch. Pior ainda, há marcas que mudam de carregador consoante o modelo do próprio relógio!
Não seria muito mais simples enfiar uma porta USB-C na lateral do relógio e acabar com esta palhaçada de uma vez por todas? A teoria é bonita, mas a prática é sempre mais complexa.
Água, espaço e a ditadura do design
O primeiro grande motivo para não vermos USB-C nos relógios é a impermeabilidade. Um smartwatch é um aparelho feito para andar no pulso 24 horas por dia, aguentar suor, banhos e, no caso de quem faz natação, mergulhos na piscina. Abrir um buraco no chassis para meter uma porta USB-C exposta ia dificultar por o isolamento contra a água.
A segunda rasteira é o espaço físico. Ao contrário dos smartphones, que apesar de tudo têm uma área interna generosa, os smartwatches e as smartbands vivem na ditadura do milímetro. O espaço dentro do corpo de um relógio é precioso e serve para acomodar a bateria, o motor de vibração e a panóplia de sensores de saúde. Uma porta USB-C, por muito pequena que pareça, ocupa demasiado volume lá dentro.
Para fechar, há a questão do formato. Enquanto os telemóveis são todos mais ou menos retangulares e planos, os relógios vêm em todos os tamanhos e feitios: redondos, quadrados, curvos, uns ultra-desportivos e outros finíssimos. Como cada marca desenha o relógio à sua maneira, acabam por criar também os seus próprios sistemas de pinos magnéticos para deitarem a energia lá para dentro sem estragar a estética do aparelho.
Mudar a lei à força pode matar a inovação?
Esta salganhada de cabos proprietários tem um custo óbvio: lixo eletrónico. Sempre que mudas de marca de relógio, o teu carregador antigo vai direto para a gaveta do esquecimento ou para o lixo, o que é péssimo para o ambiente.
Muitos utilizadores defendem que a União Europeia devia intervir e obrigar os fabricantes a adotar um padrão, tal como fez com os telemóveis. Neste caso até poderia ser um carregador universal sem fios em vez de uma cabo USB-C. O carregamento sem fios (como o padrão Qi2) podia ser a salvação, mas a rasteira é que essa tecnologia é lenta, faz os relógios aquecerem muito e exige bobinas internas que nem todas as marcas querem ou conseguem meter em modelos mais baratos.
Além de tudo isto, os especialistas de mercado avisam que, neste momento, enfiar a legislação no meio dos wearables seria um erro tremendo e ia estragar a experiência ao consumidor. Obrigar um fabricante a usar um determinado tipo de carregamento iria cortar as asas à inovação. As marcas passariam a desenhar o relógio em função do carregador, sacrificando baterias e sensores.






