Quem acompanhava videojogos no início dos anos 2000 de certeza que se lembra desta história. Ou seja, durante anos correu o boato de que Saddam Hussein queria comprar milhares de consolas PlayStation 2 para as ligar em rede e criar uma espécie de supercomputador capaz de ajudar sistemas de mísseis.
Soava a teoria da conspiração de fórum obscuro da internet, e durante muito tempo foi tratada exatamente assim. E de facto, a história nunca foi verdadeira. Era apenas um mito urbano. Saddam Hussein nunca construiu um supercomputador com consolas da Sony.
Mas… também não era totalmente disparatada.
Quando uma consola assustou governos!

A confirmação curiosa veio muitos anos depois, pela boca de quem lá esteve.
Kazuhiko Aoki, um dos responsáveis pelo desenvolvimento de Final Fantasy IX, revelou numa entrevista que, na altura, o próprio governo japonês tinha receio daquilo que a PlayStation 2 podia representar fora do contexto dos videojogos.
Ou seja, durante o desenvolvimento do jogo, feito parcialmente num estúdio da Square no Havai, Aoki foi convidado a testar versões iniciais de hardware da PS2. E foi aí que percebeu algo estranho para uma consola doméstica. O processador era tão poderoso que existiam restrições à exportação do hardware, precisamente por receio de uso militar.
A PlayStation 2 era um absurdo para a época!
O “Emotion Engine” da PlayStation 2 era um monstro para o ano 2000. Um chip de 128 bits, com unidades vetoriais dedicadas, pensado para cálculos paralelos intensivos. Em termos teóricos, uma PS2 conseguia chegar aos 6.2 gigaflops.
Como comparação, um PC topo de gama com um Pentium III mal chegava a 1 gigaflop em cargas semelhantes.
Isto significa que, por apenas 299 dólares, estavas a comprar algo que, no papel, oferecia mais poder de cálculo do que muitos computadores profissionais da época. Tudo porque a Sony vendia a consola com prejuízo, contando recuperar o dinheiro nos jogos.
Preço + performance!
Não era a PS2 isolada que preocupava. Era a relação preço desempenho.
Ou seja, a possibilidade teórica de alguém comprar centenas ou milhares de consolas baratas, ligá-las em cluster e obter uma capacidade de cálculo significativa para tarefas muito específicas, como simulações matemáticas ou trajetórias balísticas.
Nada disso aconteceu com a PS2. Mas o medo existiu. E não foi infundado.
Aliás, anos mais tarde, a ideia deixou de ser teoria.
Quando a ficção virou realidade… com a PS3!

Em 2010, a Força Aérea dos Estados Unidos construiu o chamado Condor Cluster, um supercomputador feito com 1.760 consolas PlayStation 3. Desta vez, não era rumor, nem lenda urbana. Era um projeto real!
Ou seja, a ideia de usar consolas como supercomputadores baratos não só fazia sentido, como acabou mesmo por acontecer.
Afinal, a internet não estava completamente louca
A história de Saddam Hussein e das PlayStation 2 era falsa. Mas o medo por trás dela era bem real. A PS2 foi uma consola tão à frente do seu tempo que obrigou governos a pensar em coisas que nunca tinham pensado em hardware de entretenimento.
Infelizmente, hoje em dia já não acontece, porque as consolas modernas são cada vez mais computadores normais de consumo, com algumas personalizações.

