A retenção de utilizadores e o tempo de ecrã são as métricas de ouro para qualquer gigante tecnológica do Silicon Valley. As redes sociais e plataformas digitais moldam as suas interfaces e algoritmos com o objetivo oculto de nos manter colados ao telemóvel o maior tempo possível. Contudo, uma coisa é saber que as empresas trabalham para o nosso envolvimento ativo. Outra, substancialmente diferente, é ver essa intenção escrita de forma literal e crua em documentos confidenciais. A propósito disto a Microsoft acabou de se ver envolvida numa enorme polémica após uma fuga de documentos internos ter revelado que o objetivo central da sua nova inteligência artificial é, textualmente, criar dependência nos utilizadores. É sem dúvida um plano polémico da Microsoft.
Plano polémico da Microsoft: o Microsoft Scout
Em primeiro lugar, importa contextualizar o timing deste escândalo. A Microsoft anunciou oficialmente o Scout, um assistente de inteligência artificial de nova geração baseado no ecossistema de código aberto OpenClaw. Ao contrário de um assistente tradicional, que funciona de forma episódica e espera que lhe dês uma ordem, o Scout chegou como um agente autónomo (agentic AI) capaz de trabalhar sozinho em segundo plano e completar várias tarefas em teu nome.
No entanto, o portal de jornalismo de investigação 404 Media deitou a mão a apresentações internas da tecnológica que mancharam o lançamento do produto.
Os documentos expõem uma estratégia dividida por etapas:
- A fase oculta “ClawPilot”: Antes de receber o nome comercial de Scout, o assistente era conhecido internamente como ClawPilot.
- Fase 1 – “Make people addicted”: Sob o plano de desenvolvimento geral da ferramenta, a primeiríssima fase de implementação tinha como título literal e explícito “Tornar as pessoas viciadas”.
- As fases seguintes: As etapas posteriores do documento focavam-se em ligar o Scout a mais serviços de inteligência artificial. Também em expandir as suas capacidades com novas funcionalidades.
Funcionários da Microsoft em choque com a estratégia
O desabafo de quem trabalha nos bastidores da gigante tecnológica ajuda a ilustrar o desconforto ético que esta linguagem provocou. Um funcionário anónimo da Microsoft confessou o seu descontentamento face à estratégia adotada pela chefia. “Estamos a ver cada vez mais dependência a acontecer com os chatbots e agentes de IA. No geral a adicção é algo que nenhum produto deveria incluir na sua estratégia de desenvolvimento”, revelou a fonte. O funcionário acrescentou ainda que ver aquilo escrito foi um autêntico momento de “dizer em voz alta aquilo que devia ser segredo”.
Um segundo trabalhador da empresa sugeriu que, no fundo, o objetivo final de qualquer grande empresa de software é criar ferramentas que se tornem viciantes para garantir o sucesso comercial.
O perigo da dependência da inteligência artificial
Este caso ganha uma relevância muito maior por surgir numa altura em que a comunidade médica e os reguladores internacionais apertam o cerco em torno do impacto psicológico dos chatbots. Estudos científicos recentes têm alertado para o facto de a dependência extrema de assistentes virtuais poder alimentar ilusões em utilizadores mais vulneráveis.
Embora o Scout seja uma ferramenta puramente focada na produtividade profissional e na automatização de tarefas, a admissão interna de que a Microsoft quer prender os profissionais a um ciclo de dependência tecnológica promete reabrir o debate ético sobre os limites do desenvolvimento da inteligência artificial.
A máscara da produtividade pura caiu e deu lugar à crua realidade dos negócios digitais. A tecnologia que devia libertar o teu tempo pode ter sido desenhada, desde o primeiro rascunho, para te manter totalmente dependente dela.
O que achas deste plano da Microsoft?




