Eu sei que não sou bem uma pessoa “normal”. Ou seja, devido ao facto de conseguir testar carros quase todas as semanas, e por vezes até mais que um, tenho uma visão bastante mais alargada daquilo que acontece no mercado face ao que deveria ser o normal.
Mais concretamente, sei que modelos estão no mercado, quais estão a chegar, e que grandes novidades vamos ver nas nossas estradas ao longo dos próximos anos. Mais importante que isto, sei como são feitos, e qual é a sua base.
Isto pode parecer giro, e de facto é, pelo menos às vezes é. Mas, também tem um lado um bocado negativo. No mundo automóvel moderno, é muito fácil conduzir o mesmo carro várias vezes, com nomes diferentes, e até a partir de marcas diferentes.
O mercado mudou, evoluiu, foram feitas parcerias importantes para tentar aumentar a produtividade, eficiência e lucratividade. E claro, tudo isto resultou no mercado mais aborrecido de todo o sempre.
A ilusão da escolha? As marcas mataram a personalidade dos carros, enquanto perseguiam a sua própria sobrevivência.
Antigamente, quando nos sentávamos ao volante de um carro francês, sabíamos exatamente o que esperar ao nível de conforto e comportamento dinâmico. Se saltássemos para um modelo alemão, a rigidez e a precisão da engenharia eram óbvias nos primeiros metros. Hoje em dia, essa linha que separava a identidade das marcas foi completamente apagada em favor da sustentabilidade e eficiência.
Ou seja, para cortar nos custos de desenvolvimento de novas tecnologias e eletrificação, a indústria virou-se em massa para las chamadas plataformas modulares partilhadas. Isto significa que um gigante automóvel desenvolve uma única base de chassis, una única motorização e a mesma arquitetura eletrónica, e depois distribui esse “esqueleto” por quatro ou cinco marcas diferentes sob o seu comando.
Isto significa que podes olhar para um Peugeot 3008 ou Opel Grandland, e no fundo, estás a olhar para o mesmo exato carro. De facto, mesmo quando queres algo diferente, o sabor também não muda assim tanto. Por exemplo, o Dacia Duster e Bigster partilham a mesma exata base. Tal e qual como o R5 e o R4. O mesmo acontece dentro do grupo VW, em que tudo é partilhado, e até podes encontrar componentes com o logotipo da Audi dentro de um Porsche.
Ou seja, no final do dia, mudam-se os painéis de chapa exteriores, desenha-se um interior ligeiramente diferente, e está feito. Por fora pode parecer um carro diferente, e pode até ter um “badge” diferente… Mas, é o mesmo exato carro que está no concessionário ao lado.
É estranho, e curioso, tudo ao mesmo tempo.
Adeus à alma!

O resultado prático desta estratégia de uniformização ao extremo é uma perda total de alma e de diferenciação. Conduzir o utilitário ou o SUV compacto da marca A, da marca B ou da marca C tornou-se uma experiência perfeitamente homogénea e estéril. O tato da direção é filtrado da mesma maneira, a resposta do motor é idêntica e até as manetes dos piscas ou os menus del sistema de infoentretenimento partilham os mesmos componentes e software base.
No fim do dia, quem perdeu foi o condutor e o entusiasta. A paixão pela engenharia e as soluções mecânicas únicas deram lugar a um catálogo previsível. E isso é de facto uma pena.





