Usar um smartwatch tornou-se normal. Hoje em dia é raro ver pessoas na rua sem um qualquer tipo de relógio inteligente. Seja para contar passos, medir o sono, acompanhar o ritmo cardíaco, ou controlar treinos. A realidade é que é tudo muito prático, e também é tudo muito moderno.
O problema é que, no meio disto tudo, há um detalhe que muita gente prefere ignorar. Estes dispositivos sabem demasiado sobre nós. Pior ainda, essa informação não fica só no teu pulso.
Estamos a falar de dados de saúde, localização, hábitos diários, padrões de sono, rotinas de exercício e até momentos sensíveis da tua vida. Informação que, na teoria, devia ser privada. Mas, na prática, nem sempre é.
Dados de saúde não são só números bonitos num gráfico?

As marcas gostam de vender a ideia de que estes dados servem apenas para melhorar a tua saúde. Ou melhor, que servem para melhorar algoritmos, que por sua vez vão melhorar o produto para todos.
Há casos em que isso é verdade. Um smartwatch pode ajudar a detetar problemas cardíacos, acompanhar tratamentos ou dar sinais de alerta importantes.
Mas convém não esquecer uma coisa simples: estes dados são recolhidos, armazenados e processados por grandes empresas tecnológicas. Google, Apple e companhia não são instituições de saúde. São negócios.
Hoje dia, os negócios vivem de dados.
“Nós não vendemos dados”… há sempre um “mas”!
Tanto a Google como a Apple afirmam que não vendem diretamente dados de saúde para fins publicitários. Mas, o problema está nos detalhes.

As políticas de privacidade falam em partilha com empresas afiliadas, prestadores de serviços e terceiros, sempre que seja “necessário”. Necessário para quem? Para ti ou para eles?
Há ainda outro ponto desconfortável. Em certos contextos legais, estes dados podem ser entregues às autoridades. Ou seja, aquilo que o teu corpo registou no pulso pode acabar num tribunal, se alguém assim o decidir.
Quando a teoria vira prática
Há exemplos reais que mostram que isto não é apenas paranoia.
Em 2022, a Google foi obrigada a pagar centenas de milhões de dólares depois de se provar que o Fitbit continuava a recolher dados de localização mesmo com essa opção desligada. Antes disso, em 2018, dados partilhados através da plataforma Strava acabaram por revelar rotas e localizações de bases militares.
Mais recentemente, estudos académicos apontam que as grandes tecnológicas são vagas de propósito quando explicam que dados recolhem, porque os recolhem e com quem os partilham.
Ou seja, o utilizador aceita tudo sem ler, e isso depois pode correr mal.
O verdadeiro problema não é o smartwatch
O smartwatch, por si só, não é o vilão. O problema é o resto.

Mais concretamente, é a normalização da recolha massiva de dados pessoais. No fundo, é confiar cegamente em empresas cujo modelo de negócio depende, direta ou indiretamente, de saber tudo sobre ti.
E quando falamos de dados de saúde, a conversa devia ser outra. No mínimo um bocadinho mais séria, e claro, muito mais regulada.
Conclusão
Smartwatches são úteis, ninguém nega isso. Mas não são inocentes. De facto, hoje em dia, a inocência é rara. Mas, quem os usa devia ter perfeita noção do que está a oferecer em troca de gráficos bonitos e notificações simpáticas.
Porque quando o produto é gratuito, ou quase, raramente és apenas o cliente. Acabas por ser também o produto.

