Se andas a ver preços de smartphones ultimamente, já percebeste que algo mudou. O flagship de 800 euros está praticamente extinto, os modelos base já começam nos 1.000 euros e as versões “Ultra” começam a dizer adeus aos 1.500.
A reação automática é culpar a inflação, mas isso é apenas uma pequena parte do problema. A razão a sério é outra, muito mais estrutural. Está a acontecer uma guerra silenciosa pelos componentes mais importantes de qualquer smartphone moderno.
A guerra pela memória está a empurrar os smartphones para segundo plano, e isto vai durar 2 anos… Ou mais!

Pode parecer estranho, visto que andamos loucos com a IA há bastante tempo. Mas, do nada, parece que a coisa rebentou. O mundo entrou numa corrida desenfreada à inteligência artificial, e essa corrida está a sugar os chips todos para o mesmo sítio.
Centros de dados. Infraestruturas de IA. Supercomputadores. Empresas como a Nvidia, a Microsoft e a Google estão a comprar capacidade de produção de memória a preços absurdos para alimentar modelos de IA cada vez maiores.
O resultado é simples. Os chips que antes iam para smartphones estão agora a ser desviados para servidores. O que acontece? Quando a oferta é limitada, quem paga mais passa à frente. O mundo dos smartphones ficam no fim da fila, porque as margens estão cada vez mais apertadas.
Não há espaço para baixar ainda mais a margem de lucro, e também não há muito espaço para aumentar preços.
Mas… Isto não é um problema temporário. É uma reestruturação completa da cadeia de abastecimento global.
Porque é que as fábricas não conseguem “produzir mais” de repente

Existe uma ideia muito errada de que os fabricantes de chips podem simplesmente aumentar a produção quando a procura sobe. No mundo dos semicondutores isso não funciona assim. Fabricar chips é, provavelmente, o processo industrial mais complexo à face da Terra.
Um único wafer de silício passa por mais de mil etapas diferentes antes de estar pronto. Cada máquina custa milhões, algumas centenas de milhões, e trabalha com tolerâncias ao nível do átomo. Uma partícula de pó invisível pode destruir semanas de trabalho. O processo completo demora meses, e construir uma nova fábrica demora anos e dezenas de milhares de milhões de euros.
Mesmo que hoje se decidisse resolver o problema, os efeitos só se sentiriam perto de 2027 ou 2028. Até lá, não há atalhos.
A IA está a sugar a memória e armazenamento do mundo
O grande vilão desta história chama-se memória de alta largura de banda, usada em sistemas de IA. Produzir este tipo de memória consome muito mais silício do que a memória usada em smartphones. Na prática, cada gigabyte usado num sistema de IA equivale a vários gigabytes que deixam de existir para o mercado de consumo.
As estimativas apontam para que, já em 2026, mais de 20% de toda a capacidade mundial de produção de DRAM seja absorvida pela IA. Para os fabricantes, a decisão é óbvia. A margem de lucro é muito maior nos contratos para centros de dados do que na memória usada em smartphones.
O smartphone perde. Sempre.
A “shrinkflation” chegou à tecnologia
Quando os componentes ficam mais caros, as marcas só têm duas hipóteses. Ou aumentam o preço, ou dão menos hardware pelo mesmo dinheiro. E é aqui que começa a parte menos visível para o consumidor.
Durante anos, os smartphones foram acumulando mais RAM, mais armazenamento e melhores componentes. Essa tendência está a inverter-se. Já se fala abertamente em smartphones de gama baixa a regressarem aos 4 GB de RAM. E mesmo em modelos de gama alta, a evolução está a estagnar. Fica-se nos 12 GB quando o software pede mais, porque subir para 16 GB rebenta com as margens.
Isto cria um paradoxo curioso. As marcas promovem funcionalidades de IA que exigem mais memória, mas ao mesmo tempo não conseguem incluir essa memória sem subir brutalmente os preços.
O fim do verdadeiro “gama média”?

O segmento mais afetado é o da gama média. Durante anos, foi o melhor compromisso do mercado. Preços entre os 400 e os 600 euros, com 80% da experiência de um topo de gama. Esse espaço está a desaparecer.
Os modelos baratos cortam em tudo o que podem. Os topos de gama absorvem os custos porque têm margens maiores. A gama média fica esmagada no meio. Não pode cortar demasiado, nem pode subir muito o preço. Resultado? Começa a deixar de fazer sentido.
Se nada mudar, o smartphone de 500 euros como o conhecemos pode simplesmente desaparecer. Ficam os baratos cheios de compromissos e os caros a preços cada vez mais absurdos.
Geopolítica, fábricas locais e o novo “imposto do silício”
Há ainda outro fator que raramente entra na conversa. A desglobalização. Produzir chips fora da Ásia é mais caro. Muito mais caro. Leis ambientais mais apertadas, salários mais altos e menos eficiência logística fazem com que cada chip produzido na Europa ou nos EUA traga um prémio permanente no preço.
Sim, é ótimo para a segurança estratégica. Porém, péssimo para o consumidor.
Estamos a trocar eficiência por segurança, e a fatura vai parar ao mesmo sítio de sempre. À nossa carteira.
O fim da era da tecnologia barata?
Em suma, durante décadas vivemos numa ilusão confortável. Tecnologia cada vez melhor, mais barata, mais rápida, ano após ano. Essa era acabou. Não porque a inovação tenha parado, mas porque os recursos deixaram de estar disponíveis para toda a gente.
A IA está a concentrar poder computacional em poucos sítios, e o consumidor comum está a pagar o preço.
Esperar pelo próximo modelo pode já não ser o melhor conselho. Em muitos casos, o modelo do ano passado vai ser o último a oferecer uma relação qualidade preço aceitável durante bastante tempo.
Enfim… A tecnologia voltou a ser um luxo.

