Continuo a achar que o cinema está muito “paradinho”. E não, não é apenas uma provocação barata. Basta olhar para o estado atual da indústria para perceber que algo mudou profundamente na forma como consumimos filmes, ou se quisermos ir por aí, séries também.
Afinal de contas, há apenas alguns anos, ir ao cinema era um evento. Havia expectativa. Havia até entusiasmo. Era fácil encontrar filmes que te faziam querer sair de casa numa sexta-feira à noite só para estar numa sala escura durante duas horas.
Hoje? Isso acontece cada vez menos. Sendo exatamente por isso que começa a ser normal ler notícias de salas a fechar em Portugal. Aliás, não é só por cá… É por todo o lado.
Pessoalmente, quando me convidam para ir ao cinema, e eu vejo que a sessão tem 3 horas… Eu até tremo. Já fingi estar doente para não ir.
O problema não é só a qualidade dos filmes?
Muita gente diz que o problema não é só a qualidade dos filmes. Sim, acredito que Hollywood perdeu criatividade. Que é mais comum ver sequelas, remakes e universos partilhados. Há alguma verdade nisso. É certo.
Mas… Durante anos, o cinema foi dominado por fórmulas extremamente seguras. Marvel, Star Wars, remakes da Disney, sequelas de tudo e mais alguma coisa. Por isso, inevitavelmente, a tal “magia” começou a desaparecer.
Mas essa não é a única razão! O mundo mudou. E o cinema, em muitos aspetos, não mudou com ele.
Hoje os filmes chegam a casa quase imediatamente!
Seja a partir de plataformas de streaming legais como a Netflix, Prime, Apple TV, etc… Ou plataformas ilegais que são ainda mais rápidas que as legais, a realidade é que antigamente, um filme demorava meses a chegar a casa. Hoje, às vezes demora semanas.
Em alguns casos, e aqui temos de falar dos episódios das séries mais populares do mercado, aparece online quase imediatamente. Ferramentas como Stremio ou IPTV basicamente colocam todo o catálogo do mundo à distância de um clique.
Quando tens acesso a praticamente tudo no sofá de casa, a pergunta passa a ser muito simples. Vale mesmo a pena sair de casa para pagar um bilhete de cinema?
O preço não ajuda!
Ir ao cinema nunca foi barato, mas era acessível. Qualquer pessoa conseguia ir pelo menos 1 vez por mês, caprichando até nos snacks. Hoje? É para esquecer.
Entre bilhete, pipocas e bebida, uma ida ao cinema pode facilmente chegar aos 20€ ou mais por pessoa. Para muitas famílias, isso significa gastar 50€ ou 60€ numa única sessão.
E depois há outro problema, que é a experiência dentro da sala.
Salas que nem sempre estão nas melhores condições, pessoas a falar, telemóveis ligados, miúdos a fazer barulho. A verdade é que muita gente já teve más experiências suficientes para começar a pensar duas vezes antes de voltar.
Os hábitos também mudaram!
Há ainda outro fator curioso. Isto porque a forma como consumimos filmes mudou completamente.
Muita gente já nem vê um filme de uma vez só. Vê um pouco hoje, outro pouco amanhã, e termina no dia seguinte. A nossa vida mudou, temos menos tempo, e por isso mesmo, menos vontade de dar o pouco tempo que temos a coisas que podem acabar por não valer a pena.
Dito tudo isto, quando estás habituado a consumir conteúdo assim, a ideia de passar três horas seguidas numa sala de cinema deixa de parecer tão apelativa.
Especialmente quando muitos filmes modernos já ultrapassam facilmente as duas horas e meia.
O cinema não vai desaparecer. Mas precisa de mudar se quer continuar forte.
Apesar de tudo isto, o cinema não vai desaparecer.
Grandes eventos continuam a encher salas. Filmes realmente bons continuam a criar entusiasmo. Ainda existe magia quando aparece algo especial.
Mas também é cada vez mais claro que o modelo tradicional está sob pressão.
Se a indústria quiser que as pessoas continuem a sair de casa para ir ao cinema, então precisa de voltar a oferecer algo que o sofá de casa não consegue dar.
Porque neste momento, para muita gente, a escolha já está feita.








