O mistério de Final Fantasy XV – Genial ou Aborrecido?

Quando saiu, finalmente (passando o pleonasmo), o Final Fantasy XV, as minhas expectativas eram baixas. Vinha da ressaca da trilogia do Final Fantasy XIII, pouco satisfatória e pior – pouco digna do seu legado. No fundo, só não queria outro Duke Nukem Forever.

Quando comecei o jogo e levei com aquela batalha épica repleta de chamas, pensei – Wow, ok, isto é fixe. E depois arrastei o Regalia pelo deserto. Ou quase Route 66, se por lá habitassem Cactuars. Ao som de, espantem-se, Florence + The Machine. E o contraste destes dois momentos intrigou-me. É como se dois jogos completamente diferentes vivessem em Final Fantasy XV.

Stand by me!

Passando as primeiras missões e iniciando a viagem pela primeira região, senti-me à vontade. O sistema de combate, pela primeira vez completamente em tempo real e sem turnos, é fluído e extremamente bem construído. Sente-se a dependência da nossa técnica. Tudo bem que é sempre relativo – experimentem voltar a Hammerhead a nível 80 a ver se conseguem perder. Mas não deixa de ser muito fixe teletransportarmo-nos dum lado para o outro. Se acompanham Naruto, é o mais próximo que teremos de jogar como o Minato.

Agora, toda esta adrenalina está dividida por percursos de longos, longos minutos de carro. Quão longos? Imaginem esperar 7 minutos para chegar ao vosso destino. Aaah, mas dá para fazer fast-travel… Népia. Porque se o fizermos, perdemos a oportunidade de ganhar AP. Ou Ability Points, que são a nossa moeda de troca para desbloquear perks.

E isto irritava-me solenemente. Porque bolas – a história principal (mesmo com os seus defeitos) tem momentos do melhor que se fez em toda. A. Saga. A sério. Vejam a caçada do Behemoth ou o combate com Atlas para terem uma noção. Estas secções deixaram-me completamente vidrado, agarrado ao comando da PS4. Imaginem virem dum Final Fantasy XIII onde pouco ou nada se passa para viverem uma batalha quase à escala real com um dos summons clássicos da franquia.

Final Fantasy XV: devagar, parado, morto

Contudo, repito novamente. Estes momentos são intercalados com a maioria do jogo. E Final Fantasy XV, quiçá o mais aproximado à vida real, obriga-nos a sentir as dores que sentimos nas nossas rotinas. Principalmente no que toca às sidequests.

Meu Deus. Confesso-me desde já culpado por vir mal habituado do Witcher 3. É que repetir, Ad Nauseum, missões onde tenho que ir buscar comida para o dono do restaurante sem qualquer tipo de contexto ou narrativa dão cabo de mim. E este é só um exemplo das inúmeras sidequests cujo objetivo é sempre o mesmo. Ir buscar objecto x a local y para pessoa z.

Vyv no Final Fantasy XV
Decorem a cara do Sr. Paparazzi. É dos que vos dá mais dinheiro.

Foi mais ou menos por volta das 60 horas – ainda no capítulo 6 – que me bateu. Porque tive de fazer um trabalho introspectivo. Se estou a reclamar tanto com o jogo e vou apenas a meio, porque raio continuo a jogar? Porque esta arquitectura de Final Fantasy XV é genial.

Como assim, genial?

Bear with me. Pensem no vosso dia-a-dia. Provavelmente passam a semana inteira a trabalhar / estudar / whatever – coisas rotineiras e dentro da lógica do necessário. Para quê? Para poderem​ ter tempo e dinheiro para os vossos dias livres. São nesses dias que os momentos mais divertidos, emocionantes e épicos acontecem.

Agora imaginem que os vossos dias livres eram passados num mundo de fantasia, recheado de intriga, magia e monstros absolutamente épicos. Claro – vocês teriam todos os poderes e mais alguns para vencer tudo isso. É essa a experiência real de Final Fantasy XV, e para mim, o porquê da aposta no hiper realismo. Claro que não falamos duma atenção meticulosa, como Breaking Bad. Porém, tudo o que fazemos no jogo tem um propósito.

E a dada altura, damos por nós com horas e horas de gameplay, apenas nas tarefas mundanas das quais reclamamos. Porquê? Porque nos estamos a preparar para aqueles minutos épicos, onde o jogo rivaliza com o que de melhor se faz hoje em dia. Principalmente se tivermos em conta a questão da banda-sonora. Nada contra o Nobuo Uematsu – para mim, o melhor compositor de videojogos de sempre. Ele é o Ennio Morricone versus o Koji Konda A.K.A. John Williams.

Mas os temas de batalha compostos por Yoko Shimomura conseguem rivalizar com os melhores de Uematsu. Principalmente o Omnis Lacrima – música que toca quando lutam contra os monstros mais brutais, como o Midgardsormr. E por favor, façam o favor de ouvir a música. Leva-nos ao espírito de OH MEU DEUS AQUELA COISA VAI MATAR-ME SÓ DE OLHAR PARA MIM!!!

Migardsormr no Final Fantasy XV
Quem me dera que o Sephiroth estivesse ali para a despachar…

E é por isso que, 80 horas depois, continuo em caçadas e a fazer as mais recentes timed quests. Porque não consigo deixar de me divertir com esta simulação fantasiosa da nossa vida, que nos ensina duas coisas. Primeiro, que devemos ver sempre com ponderação os momentos​ mais aborrecidos da nossa rotina. Graças a eles, damos mais valor aos momentos de descanso e descontração.

O outro ensinamento? Viagens com amigos são do caraças.

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