Durante mais de duas décadas, talvez até mais anos que isso, Portugal viveu uma autêntica febre do gasóleo. De facto, quem não comprasse um carro a diesel era olhado de lado na família ou no café: “A gasolina é cara e gasta muito”, “o gasóleo é para durar a vida toda”, “fazes 1000 km com um depósito”.
Essa conversa colou de tal maneira na cabeça dos portugueses, que se compravam carrinhas 1.9TDI ou 2.0 TDI para ir buscar o pão a 500 metros e levar os miúdos à escola na rua ao lado. Mas, basta olhar para os números mais recentes do mercado português de usados para perceber que o império do diesel está a desmoronar-se a uma velocidade assustadora.
A queda livre: De 74% para 37% em apenas cinco anos!

Os dados partilhados recentemente na comunidade do Reddit (r/AutoTuga) são uma chapada de realidade. Em 2021, cerca de 74% dos carros usados vendidos por profissionais em Portugal eram a gasóleo. Hoje, em 2026, essa fasquia caiu para metade: apenas 37%.
O mercado mudou completamente e a divisão das vendas no retalho de usados mostra um cenário muito mais fragmentado:
- Diesel: 37% (em queda abrupta)
- Gasolina: 30% (muito estável com os motores 1.0 turbo)
- Elétricos puros (BEV): 19% (a ganhar terreno a passos largos)
- Híbridos (HEV/PHEV): 14%
Mais impressionante ainda é a diferença quando olhamos para a idade dos veículos: nos carros matriculados em 2016, quase 70% dos vendidos continuam a ser diesel. Mas se saltarmos para os modelos semi-novos de 2025, o gasóleo representa uns míseros 10% do mercado.
Porque é que o tuga se fartou do gasóleo?
A resposta não tem segredo e resume-se a uma coisa muito simples: a carteira fala mais alto.
Primeiro, os motores modernos a gasolina (os pequenos três cilindros turbo do estilo TSI, TCe ou EcoBoost) deixaram de ser os bêbados de outros tempos. Hoje fazem médias perfeitamente aceitáveis de 5.5 ou 6.0 l/100km, custam menos no stand e pagam menos de IUC.
Depois, veio o pesadelo das oficinas. O consumidor português aprendeu à força o significado de siglas que dão suores frios:
- Filtros de Partículas (FAP ou DPF): Motores a gasóleo usados para voltinhas curtas de cidade nunca atingem a temperatura certa para regenerar o filtro. O resultado? Filtros entupidos, carros em modo de segurança e faturas de quatro dígitos no mecânico (ou o clássico “DPF off” ilegal para passar na inspeção).
- Sistemas AdBlue: Depósitos que cristalizam, bombas que avariam e erros eletrónicos crónicos que atiram qualquer poupança na bomba para o lixo.
- Preço do combustível: O gasóleo deixou de ser a alternativa barata. Em muitas semanas anda colado ou até mais caro do que a gasolina simples.
Se a tudo isto juntares as empresas a migrarem em massa para frotas 100% elétricas e híbridas plug-in por causa dos benefícios fiscais (dedução de IVA e isenção de tributação autónoma), a torneira dos carros a diesel novos fechou quase na totalidade.
O diesel morreu mesmo?
Não, não morreu nem vai desaparecer nos próximos anos. Quem faz 30 ou 40 mil quilómetros por ano em autoestrada, anda de transportes pesados ou tem um diesel antigo sem eletrónica manhosa continua a ter uma ferramenta de trabalho imbatível.
O que morreu de vez foi a ilusão de comprar um carro a gasóleo moderno para andar no trânsito de Lisboa ou do Porto a pensar que se está a poupar tostões. As pessoas finalmente perceberam que a manutenção e as avarias complexas comem qualquer migalha que se poupe no depósito.







