Passas o dia a culpar-te por “estar muito tempo no telemóvel”? Talvez estejas a olhar para o número errado. Dois estudos recentes chegaram a uma conclusão que contraria o que todos assumíamos: o que mais te cansa a cabeça não é quanto tempo passas no ecrã, é quantas vezes lhe pegas e, sobretudo, o que andas a ver. Explicamos o que a ciência descobriu (e o que podes fazer com isso).
A surpresa: o tempo de ecrã não é o vilão
O primeiro estudo, da Universidade de Aalto (Finlândia), seguiu durante sete meses o comportamento digital de 277 adultos, registando mais de 13 milhões de interações. E o resultado surpreendeu os próprios investigadores: o tempo total online mal conseguia prever a sensação de sobrecarga das pessoas.
“O tempo de ecrã importa, mas quem usa mais não é quem se sente mais sobrecarregado”, explicou Henrik Lassila, autor principal. “Os que se sentem mais assoberbados são os que voltam ao telemóvel uma e outra vez, por breves instantes, e o pousam logo a seguir.”

Por outras palavras, o problema é a fragmentação: aquelas dezenas de “espreitadelas” rápidas ao longo do dia, o micro-check constante, cansam mais do que uma sessão longa e contínua. Curiosamente, o efeito era mais forte de manhã e sobretudo no telemóvel, em especial nas mensagens.
O segundo fator: o “brain rot”
O segundo estudo, da Universidade de Karabük (Turquia), inquiriu 439 adultos e trouxe a outra metade da explicação: o tipo de conteúdo importa e muito.
Os investigadores estudaram o chamado “brain rot” (algo como “apodrecimento do cérebro”), a expressão que o dicionário Oxford elegeu palavra do ano em 2024 para descrever a névoa mental associada ao consumo compulsivo de vídeos curtos. A conclusão: o consumo passivo, guiado por algoritmos, de conteúdos de baixa qualidade e ritmo acelerado (o scroll infinito do TikTok ou do Instagram) prevê esgotamento que depois alimenta stress, ansiedade e, em alguns casos, sintomas depressivos.
Olhar para o ecrã não é tudo igual
Há aqui uma distinção importante, e que traz algum alívio: nem todo o tempo de ecrã é mau. Os investigadores notam que muitos videojogos, por exemplo, exigem participação ativa, concentração e um objetivo, ao contrário do scroll infinito, que nos deixa num estado “amortecido”, a deixar passar vídeo atrás de vídeo sem estímulo real nem vontade de parar.
Ou seja, o problema não é o telemóvel em si, nem sempre o tempo é a forma passiva como muitos de nós consomem redes sociais. Culpamos o aparelho (o “recipiente”), quando o verdadeiro fator é o conteúdo.

O que podes fazer (conselhos dos próprios investigadores)
A boa notícia é que há mudanças simples, sugeridas pelas próprias equipas:
- Agrupa as verificações. Em vez de espreitar as mensagens 30 vezes ao dia, tenta vê-las (e responder a tudo) em duas ou três sessões. Segundo os autores, podes sentir-te menos stressado.
- Desliga as notificações não essenciais. Não tens de responder a cada “ping” no momento, é isso que alimenta o micro-check constante.
- Cuidado com as manhãs. Como o efeito é mais forte de manhã, evitar começar o dia agarrado ao telemóvel pode fazer diferença.
- Troca o passivo pelo ativo. Se vais usar o ecrã, um conteúdo que te faça pensar ou participar cansa menos do que o scroll sem fim.
No fundo, a mensagem destes estudos é libertadora: não precisas de te obcecar com o “tempo de ecrã” no fim do dia. Vale mais prestar atenção a com que frequência pegas no telemóvel e ao que consomes nele. Pequenas mudanças nesses dois pontos podem valer mais do que horas de culpa.






