Na Fórmula 1, apesar de existir alguma gestão (agora também no lado da bateria), é preciso ir ao limite daquilo que o carro tem para oferecer, de forma a conseguir ser mais rápido que todos os outros pilotos. Por sua vez, na Fórmula E, as coisas são um bocadinho diferentes. Tens de gerir a tua bateria como se fosse a tua vida.
O que levanta a questão… Como é que um Fórmula E cruza a meta com apenas 0,1% de bateria?
Ver um monolugar elétrico cruzar a linha de meta da Fórmula E com uns miseráveis 0,1% de capacidade na bateria pode parecer um golpe de sorte desesperado de quem arriscou tudo na última curva. Mas… É completamente normal. Não há ali um único pingo de sorte. Trata-se de precisão, matemática e planeamento ao milímetro que deixa a gestão de combustível dos carros a combustão a um canto.
O segredo no meio disto tudo? Os pilotos não estão apenas a conduzir, estão a seguir ordens cegas de um software preditivo ultra-avançado que lhes diz exatamente quando acelerar, quando tirar o pé e quando travar para recuperar a energia que falta para chegar ao fim.
Sim, existe muita regeneração envolvida, tal e qual nos carros elétricos que temos nas nossas estradas. Porém, claro… Num nível completamente diferente. Aliás, enquanto a bateria de um carro destes conta com uma capacidade de mais ou menos 52kWh, ao longo da corrida, pode vir a gastar mais de 90kWh.
Sim, a regeneração pode dar muita e boa energia ao longo da corrida.
Arrancar para a corrida com apenas metade da energia necessária

Há um detalhe fascinante na Fórmula E que a maioria das pessoas desconhece! Os carros começam a corrida com sensivelmente 50% da energia total que precisam para cumprir todas as voltas. Sim, a bateria vai cheia, mas não chega para todas as voltas.
Parece um contrassenso, mas é a pura realidade da tecnologia de regeneração de energia.
Ou seja, nos modelos atuais GEN3 Evo, praticamente metade da eletricidade gasta ao longo da prova é gerada no próprio momento através da travagem regenerativa. Ou seja, assim que o piloto pisa o travão, os motores elétricos transformam-se em geradores gigantescos, convertendo a energia cinética de volta para a bateria.
É um quase absurdo, que mostra até onde a tecnologia pode de facto ir.
Sinais sonoros nos ouvidos e o instinto do piloto no meio dos números!
Para conseguir esta façanha, o volante e o capacete do piloto transformam-se numa central de notificações. Talvez pior que o teu smartphone no dia do teu aniversário.
Ou seja, através de luzes no painel e apitos sonoros nos auscultadores, o carro indica ao piloto o momento exato em que deve fazer “lift and coast” (tirar o pé do acelerador antes da curva para deixar o carro rolar e carregar a bateria). É preciso confiar 100% na máquina e fazer exatamente o que ela pede.
No entanto, o software faz simulações teóricas para o caminho mais rápido de A a B num cenário ideal, mas não consegue prever o fator humano. Ou seja, a necessidade de defender uma ultrapassagem ou de se colar ao vácuo do carro da frente. É aí que entra o talento do piloto para saber em que setores da pista vale a pena poupar e onde é preciso gastar a energia acumulada para atacar a concorrência.
No fim do dia, cruzar a meta com 0,1% não é um milagre, é saber o que se está a fazer. Porque, se cruzares a meta com mais que isto… Bem… Vais estar muito longe do pódio.







